I - O Café XIX
aquele café da esquina era meu ponto de referência, antes e depois de entrar para o trabalho. suas mesinhas e cadeiras de madeira repintadas imensas vezes, os quadros embaçados com seus posters velhos e amarelados, com aquelas pinturas dos anos setenta tinham a sua graça. nos dias de folga gostava de me sentar ali também, no meu canto cativo, ao lado da vitrine que dava para rua, apenas para olhar o dia passar. uma xícara grande de café, que esfriava antes de terminar de tomar e um pão francês embarrado com manteiga eram o bastante para um dia sem dinheiro e de pouca vontade de estar enfiada naquele quarto com banheiro que eu chamava carinhosamente de casa. as cidades de interior, mesmo deixando de ser vilarejos para habitar certas fábricas de coisas pouco úteis traziam certo movimento a lugares pacatos, como a minha cidade natal. era ali que gostava de ler os livros que pegava na biblioteca municipal, era ali que meu tempo passava lento e com certo prazer.
me sentar ali e observar era o prazer que me cabia, como se eu caminhasse invisível em meio a todos sem ser vista, ou percebida.
(...)
achava engraçado a maneira que as moças da minha idade se comportavam, gastando o dinheiro que não tinham no salão de beleza e na boutique/brechó, no centro da cidade. numa guerra afiada e atroz, numa competição animosa por olhares, requerendo apenas o interesse dos rapazes. pobres moças, se esgueiravam sob os olhos deles enfeitadas, desfilando seus atributos falsos, roupas apertadas, com aqueles ares de lantejoulas de segunda mão, sem brilho para os desdém de quem nem queria estar ali enfiado naquele fim de mundo. e depois de serem usadas e desprezadas como o papel do pão, que têm sua serventia rápida, enquanto está tudo quente e macio, destilavam seu veneno umas nas outras, por pura miséria humana.
me sentia estranha, me considero ainda uma criatura de hábitos e gostos fora da caixa, não sei dizer ao certo se é uma impressão totalmente particular ou se as pessoas me veem diferente das outras, me via na personagem de filme de terror: "Carie, a estranha", que não era malvada de todo, mas estava muito magoada com o mundo que a rodeava e diante de tantas mudanças anímicas e da extrema dificuldade em se adaptar depressa ia se tornando mais e mais desconectada do que a rodeava. e quanto mais essa mudança íntima e pessoal escalava mais reforçava a sua ira e revolta num ciclo vicioso, até que detonava em uma explosão vingativa sobre tudo o que ela estranhava ou desgostava.
ser diferente, não seguir a manada dos cordeiros onde está inserido não é bem visto ou aceitável, não pode mudar o jogo, não é permitido ser diferente e sendo exceção, na maioria das vezes, sabe-se que a rejeição e a punição são garantidas, ninguém sai impune por não se adaptar. discutir com o sistema imposto, discutir com as regras, ou sendo mais objetiva: subverter o que já lhe é imposto é muito perigoso para si, eu paguei para ver.
Carie não era estranha, olhando pelo prisma atual, ela era apenas uma menina solidificando sua personalidade, mas por ser incompreendida responde, mesmo que sem querer, por ter poderes ficcionais, se vinga de todos que fazem mal para ela.
(...)
uma cidade pequena, uma comunidade reduzida, pessoas que se conhecem desde de sempre, e a carga dos pais, avós, um histórico de maldizeres bem antes de nascer, essa é a herança do pobre, essa é a herança do marginalizado. ainda que saísse do campo para viver na cidade, e que soubessem vagamente de onde vinha, daquele momento em diante já estaria marcado por ser um forasteiro, um invasor e por ser um campesino: um chucro. posso afirmar com certeza que é mais fácil lidar com animais e cheirar bosta o dia inteiro do que estar no meio de gente falsa e perversa. mas quem poderia lutar contra a tragédia da pobreza, "os feudos contemporâneos" e contra as castas impostas pelo "capitalismo selvagem"? um poeta? Maiakovski? um profeta? Jesus?
a igrejinha plantada no meio da cidade, ficando cada ano maior com as edículas feitas lado a lado para subirem a torre um pouco mais, com seu sino que ecoava de hora em hora, e sies vezes na horado angelus, com suas imagens de santos e suas carinhas de dor e beicinho para qualquer fé, com um Deus delivery para cada uma, deixa esboçado na cara das carolas fofoqueiras que Céu é que nos espera...
hoje um terapeuta, um psiquiatra, me colocaria a pensar sobre os temas, antes eu pensava por mim, e chego a conclusão de que ninguém salva ninguém. e não tenho resposta para nenhuma pergunta.
aquela pequena cidade matou qualquer resquício que eu poderia ter de fé, e me fez duvidar de ter esperança, apenas me lembrar de como eu percebia aquelas pessoas me dá ânsia, me faz mal à gastrite, era sufocante estar ali, muitos olhos, que nem me fingindo de surda, me fingindo de muda, nem mesmo me fazendo de morta, eu teria paz ou futuro, teria atentado contra a minha vida mais cedo.
era agradável quando havia quermesse, a comida era realmente boa e distribuíam de graça.
(...)
eu gostava mesmo era do pão com café, e da minha cadeira carcomida pelo tempo. antes de você, desconhecia Macabea, desconhecia tanta coisa, como ela se sentiria inquirida por tantos olhos? quereria ela ser anônima, teria ela se sentido uma anomalia da natureza se tivesse em meus sapatos?
não que eu preferisse ser a "Macabea" da Clarice Lispector, lembro-me que era assim que você me chamava quando nos conhecemos, quando olhou para mim de verdade, pela primeira vez, lembro também da maneira com que servia as pessoas do café, eu me lembro de tudo. Macabea era uma moça sofrida, de pouca instrução e que tinha o seu encanto particular e simples, provinciana e com pouca cultura, presa naquela realidade torpe e tão humana que aprisiona quase todos que herdam apenas uma vida dura e de privações e minha realidade e a dela se pareciam muito naquela época, acho que tive mais sorte, penso que fui menos deslumbrada e menos pacífica e ainda bem que vivi mais, não morri atropelada no fim da história. o certo é que trabalhava demais, para ter o mínimo, era quieta, sorria muito (mas por dentro), por vezes para me consolar das minhas faltas e carências, por vezes para demonstrar a mim mesma meu valor desenvolvendo um escárnio sobre tudo que me irritava e hoje não sei dizer se fazia isso porque me achava diferente e não me adaptava ou se criava essa distância instintiva por não saber como fingir, realmente até o momento não sei ao certo o que me fez assim.
(...)
II - O Balconista que queria ser escritor
e eu que me julgava diferente, acima dos sentimentos humanos, não percebi que depois que o balconista do café entrou na minha vida, entendi que trago mais similaridades com aquelas moças do lado do fora do que supunha. o vidro embaçado do café não me deixou enxergar mais cedo que aquilo era quase um espelho e que as histórias são parecidas, mas ainda bem que não são tão iguais assim. o meu escarnio secreto e particular deu espaço para os mesmos sorrisos bobos de todas elas e a atitude rebelde deu espaço ao acanhamento característico de quem se sente inferiorizada por não ter o que a maioria tem, por não ser parecido com os que estão a volta, um estranhamento interno difícil de calar.
antes dele era fácil caminhar pelos escombros de pessoas vivas e infelizes, cristãs, cheias de fé e de maldade no coração, sem enfrentar o medo de ser atingida por elas porque eu me sentia invulnerável, depois de Francisco, tudo mudou definitivamente.
para mim é tão difícil descrever-te, seguro o lábio entre os dentes para não tremer, não quero chorar dessa vez. as palavras fogem, "assim como minha retórica forte sobre minha argumentação fraca" (risos), fortaleça os argumentos e com eles bem formatados ninguém há de querer derrubar teu discurso, seja elegante e fina, não altere a voz, ainda que o coração lhe saltar pelo peito, ainda que a animosidade lhe chamar ao insulto, seja educada, complacente, respire fundo e aparente a leveza dócil do civilizado gentil, não sobreponha palavras e espere para formular tua resposta, assim como afiaria a ponta de uma flecha" e tuas palavras trazem-te de volta, não deixam-me te esquecer...
o calor das mãos, sim, o calor de tuas mãos é o que me faz estar contigo cada vez que a memória volta a ti, amado. ninguém tomou teu lugar em mim, aquele menino dentro de um corpo tão forte. a força de dez homens não lhe venceriam a guerra do sorriso e olhar profundo, me levou sempre pela mão, por lugares desconhecidos para mim, eu sim, uma menina dentro de um corpo de mulher que se desconhecia por completo e que você trouxe à vida e despertou do sono da inocência primeira. tenho a sensação que se estivesse aqui, ainda confiaria em ti, e nem em um milhão de anos pensei que fosse escrever sobre ti no passado, nunca pensei que as coisas seriam como foram.
aqui há um grande pedaço de ti, plantou-me jardins inteiros e eu continuo os cultivando para a realidade vindoura do abandono profundo e inerente a todos, não me abraça o medo da morte, talvez por conhecer tão bem a vida, por saber que a ordem natural das coisas é o desaparecimento, não me dou tanta importância a ponto de achar que tudo que sou é documental e precisa ficar para a posteridade, não sou uma desvairada, nem me deslumbro mais com as coisas, como fazia quando jovem, a vida tem seu preço, cada dia damos uma moeda e no fim ainda estamos a dever algo para alguém, viver não é justo, morrer também não, mas eu gosto de existir e dou valor nessa existência, que não teve a chance de desfrutar, por vezes me pego passando o polegar sobre a minha aliança, com o nariz preso ao indicador (risos)
eu sempre tive medo da senilidade e da força do tempo, antes tinha medo da velhice, do abandono e da morte, mas o maior temor de todos era a insanidade ou a demência, e ainda assim, mil vezes esquecer do que perder o controle sobre meu corpo, minha mente e sobre as minhas vontades.
a loucura, aquela loucura calculada era permitida a nós, éramos os cúmplices perfeitos e estarmos juntos acabou por ser uma quebra do que estava prometido para ambos como o "viver bem" e "aceitar o que nos é imposto pelo destino", nada está escrito da forma que tentaram nos enfiar goela abaixo e abriu-me os olhos, me fez perceber isso.
por tuas mãos vieram-me: a poesia de Anna Akhmátova, de Baudelaire, Byron, os cantos do Conde de Lautréamont, Maiakovski, os ensaios proféticos de Tolstói, a Dostoievski, Bukowski, a verdadeira e dura farpa da realidade de Schopenhauer, entre tantos outros que mal consigo citar, me ensinou a ler de novo, os livros novos e velhos trazem teu cheiro.
o mundo sem ti é uma terra desolada e fria, T.S. Eliot nunca fez tanto sentido pra mim, mas todas as cartas estão aqui e poderia apostar que já leu todas e quando eu voltar pra si, já as saberá de cor, quanta bobagem e desperdício de tempo, diria agora, esse tal de além não existe, Deus sou eu, e tantas frases que me faziam rir, hoje existem capetas para todos os gostos nas redes sociais, coisas que nem sonhávamos em nossos tempos. lembra da canção Personal Jesus, do Depeche Mode? agora a história é o inverso, nem sei a medida, mas o demônio está até na Universal, o mundo está um caos e estou cansada demais pra lutar contra, como fazíamos antes.
a loucura, aquela loucura calculada era permitida a nós, éramos os cúmplices perfeitos e estarmos juntos acabou por ser uma quebra do que estava prometido para ambos como o "viver bem" e "aceitar o que nos é imposto pelo destino", nada está escrito da forma que tentaram nos enfiar goela abaixo e abriu-me os olhos, me fez perceber isso.
por tuas mãos vieram-me: a poesia de Anna Akhmátova, de Baudelaire, Byron, os cantos do Conde de Lautréamont, Maiakovski, os ensaios proféticos de Tolstói, a Dostoievski, Bukowski, a verdadeira e dura farpa da realidade de Schopenhauer, entre tantos outros que mal consigo citar, me ensinou a ler de novo, os livros novos e velhos trazem teu cheiro.
o mundo sem ti é uma terra desolada e fria, T.S. Eliot nunca fez tanto sentido pra mim, mas todas as cartas estão aqui e poderia apostar que já leu todas e quando eu voltar pra si, já as saberá de cor, quanta bobagem e desperdício de tempo, diria agora, esse tal de além não existe, Deus sou eu, e tantas frases que me faziam rir, hoje existem capetas para todos os gostos nas redes sociais, coisas que nem sonhávamos em nossos tempos. lembra da canção Personal Jesus, do Depeche Mode? agora a história é o inverso, nem sei a medida, mas o demônio está até na Universal, o mundo está um caos e estou cansada demais pra lutar contra, como fazíamos antes.
dizem os amigos mais próximos e meu irmão, que o amor que vai cedo é o que mais se privilegia do carinho real e despretensioso, porque não tem orgulho ou ego ferido, porque uma das partes não está mais ali pra responder, pra se revoltar, pra se contradizer, mentir ou minimizar dores, e eu discordo, porque nada a meu respeito era-te imposto e ao mesmo era crível, confiávamo-nos , somente tu me doou a credibilidade que não mais encontrei em outro lugar, ou em outra pessoa.
é celebrado ainda, nenhum aniversário, nenhum ano-novo, nenhum fogo de artifício faiscou no céu sem a lembrança de quem é.
(...)
III - Eros e Psiquê
é celebrado ainda, nenhum aniversário, nenhum ano-novo, nenhum fogo de artifício faiscou no céu sem a lembrança de quem é.
(...)
III - Eros e Psiquê
e com a certeza de que amores verdadeiros existem, recorro a mitologia grega. qualquer um pode se dizer amado e desejado e criar uma história muito linda de amor, dentro de sua cabeça. pode inclusive vivenciá-la se de algum modo acreditar mesmo em suas próprias falácias.
quando me olhou pela primeira vez, eu não sei, quando começou a me observar, tampouco. o certo é que veio falar comigo numa tarde de domingo, calma e chuvosa. não haviam carros e eu estava envolvida com a leitura de um almanaque qualquer, naquela época não havia internet, rede móvel ou essas coisas que dragam os nossos olhos, como hoje.
colocou a xícara de café sobre a mesa e eu disse: "não pedi café" e você respondeu que era por conta da casa. só tirei os olhos da leitura por conta disso, era inédito receber café de graça ali.
antes de olhar pra você, olhei para a xícara e ao encontrar o seu sorriso sorri também. quem pagou? perguntei interessada, e você disse, vão me cobrar no fim do mês. agora vejo que não faz sentido contar para si o que nos aconteceu, pode ser um lapso, uma vontade de trazer-te para mim, ainda que seja apenas por lembranças, deixar em palavras, mesmo que jamais sejam lidas por alguém: você é muito importante na minha vida...
para Aleksandr Blok
Eu visitei o poeta
ao meio-dia em ponto. Domingo.
Quietude no amplo quarto
e, fora das janelas, o frio
e um sol cor de amoras silvestres,
envolto em névoa hirsuta e azulada…
Com que olhar aguçado o taciturno
anfitrião olhava para mim!
Tinha olhos daquele tipo
de que a gente nunca se esquece;
melhor seria, cuidadosa,
eu não devolver seu olhar.
Mas me lembrarei sempre da conversa,
o meio dia nevoento, domingo,
naquela casa alta e cinzenta,
junto aos portões do Nevá para o mar. - Anna Akhmátova"
era assim que me sentia, mas na época nem conhecia esse poema, e a minha existência tem sido assim, encontro pedaços teus em minhas leituras, nas minhas divagações cotidianas, no passado tanta coisa não fazia sentido para mim, não sei dizer se era pela juventude ou pela ignorância. o café esfriou e esfria na maioria das vezes que tenho pensamentos em nós. essa tarde foi deveras especial, chuvosa e seria vazia, não fossem as duas horas que falamos e éramos totalmente estranhos.
o livros foram chegando junto com as nossas conversas fáceis. não haviam empecilhos aparentes e eu estava totalmente à disposição para aprender e descobrir.
IV - A estrela e a esfinge
Abram Lautréamont! E aí está toda a literatura virada pelo avesso como um guarda chuva! Fechem Lautréamont e tudo volta ao seu lugar... (Francis Ponge)
muito pouca gente me conhece e sabe quem sou, debaixo dessa carapaça rija e descolorada vive alguém que vale a pena, mas há de se ter paciência, dedicação e lealdade para estar comigo de verdade. sou um animal selvagem auto destrutivo, mas que de certa forma se preserva para não morrer tão rápido. não peço ajuda e isso é um defeito enorme.
me perguntava o que eu tinha de especial se é que eu tinha algo de especial, me perguntava porque eu, me perguntava o que um rapaz tão bonito e educado faria comigo, uma jeca, me sentia uma boba, constantemente.
IV - A estrela e a esfinge
(da casa da Avenida Estrela do Sul ainda existe, numa recordação do que poderia ter sido)
(...)
V - Maldolor
V - Maldolor
muito pouca gente me conhece e sabe quem sou, debaixo dessa carapaça rija e descolorada vive alguém que vale a pena, mas há de se ter paciência, dedicação e lealdade para estar comigo de verdade. sou um animal selvagem auto destrutivo, mas que de certa forma se preserva para não morrer tão rápido. não peço ajuda e isso é um defeito enorme.
ah, meu pêndulo tão característico... querer mostrar as vísceras esperando não causar asco ou repúdio.
(...)
a passagem do tempo somada às minhas escolhas, todas vincadas pelas experiências e movimentos reativos e/ou passivos e escolhas feitas e/ou impostas construíam-se vagarosamente meu caráter, sou um amalgama de minhas vivências. mas se não tivesse conhecimento de mim, ou consciência do que acontecia à minha volta seria apenas um barco à deriva esperando por reboque.
leio as tuas cartas, só pra tocar o papel, porque sei onde estão até a pausa da tua respiração.
(...)
às vezes estar com outras pessoas soa ofensivo, eu criei uma carapaça em volta do meu coração. não porque sou uma alma inquebrável e bravia, muto pelo contrário, quanto mais o tempo passa, mais me sinto impotente e entregue a esse mundo estranho e de pessoas ocas.
(...)
(...)
às vezes estar com outras pessoas soa ofensivo, eu criei uma carapaça em volta do meu coração. não porque sou uma alma inquebrável e bravia, muto pelo contrário, quanto mais o tempo passa, mais me sinto impotente e entregue a esse mundo estranho e de pessoas ocas.
(...)
VI - O sapo na ribanceira
(...)
embriagada pelo desespero e o torpor de uma garrafa de vinho barato me dei conta do quanto essas coisas banais e frívolas da vida fizeram-me falta. não sabia, fui uma engessada moral por muito tempo, e as vozes da minha mãe ainda ecoam em minha cabeça, mesmo estando morta há tanto tempo. acredito que ela sabia quem eu era, antes eu entendesse ou soubesse de qualquer coisa de mim, ou pior, dissimulava muito bem e conduzia-me à sua revelia para onde queria, me impedindo de ter a liberdade de escolha, tão característica de todo ser humano e por imposição ou por ignorância me deixei guiar por ela. fui uma boneca, um fantoche vazio por muito tempo, julgava que ela sabia o que era melhor para mim, que por ter experiência me protegeria do mundo.
(...)
ao perceber que seria impossível conjugar meus desejos com as imposições maternas, saí de casa, com duas ou três mudas de roupas, sem ser vista, como uma fugitiva, saí madrugada a dentro, não olhei para trás e jamais voltei.
(...)
eu cheirava a sabão de coco, era o mais próximo da limpeza que eu poderia pagar. o sabão de soda também era feito por mim, para economizar, naquele tempo as coisas custavam mais e a minha dificuldade em pagá-las também era enorme
(...)
me pergunto se ter problemas em confiar nas pessoas nasceu de fato do entendimento universal, quase absoluto, de que a pessoa em que eu deveria/poderia confiar cegamente, partindo do pressuposto de que ninguém te ama mais que tua mãe e esse elo ter sido quebrado, eu concluí que essa enorme dificuldade em confiar em quem quer que seja tem sua raiz fincada aí: na relação de ódio que tenho com a minha mãe.
(...)
os marcadores de livro e as notas que tomo antes de terminar qualquer leitura importante, uma ou outra estrofe mais forte, uma ou outra palavra bonita, todas esssas pequenas coisas me levam para teus braços, para teu cheiro, para meu próprio toque para lembrar-te, comemorar-te. é exatamente onde você vive e lateja ainda, nas notas de rodapé, explicando, referenciando, dando as guias e os caminhos para novas leituras e novos entendimento, me dando oportunidade de ler e reler e reviver tuas memórias em favor desse desespero que tua falta me traz. as notas de rodapé dos livros de cabeceira cochicham com a tua voz e eu sorrio.
(...)
(...)
(esse mesmo que carregou todas as memórias recentes da minha mãe, a doença de Alzheimer levou dela o ímpeto e devolveu apenas a impotência, )
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