quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Jean

não perco o velho costume de escrever em papéis vulgares, comandas de restaurantes baratos, notas fiscais de pagamento do cartão, guardanapos de cabarés de beira de estrada. os cadernos de cabeceira permanecem como os velhos diários de bordo, para que eu não me esqueça de uma palavra sequer. quem sabe assim eu vomite as palavras que fervilham e fermentam em minha entranhas mais profundas e para que depois tente digerir e talvez degustar os mesmos momentos depois, ou quem sabe me lembre ainda com mais sentimento. e é assim que vivo, fazendo pontes com o passado que não poderá ser esquecido enquanto não for rasgado e descartado em algum lugar de minha mente rasgado e jogado fora como história velha e sem graça. aliás a vida é mais sem graça que agridoce. quando começo não consigo parar, essa velha obsessão de ver o fim antes mesmo que elas comecem a acontecer, mas as coisas agora andam num ritmo mais lento do que eu poderia conceber, aqui tudo derrete esperando o tempo se arrastar constante, como um muro de pedra, onde eu costumava me jogar contra, quando a juventude me permitia a quebra. já cuido melhor de mim, e não estou presa mais em minha teia autodestrutiva. tudo que eu não tenho é tempo, tudo que eu tenho é tempo, e não é filosofia, é a vida como ela se mostra agora, sempre requirindo algo que eu não julgava ter e tenho: paciência. embora eu passe muito tempo num estado letárgico de encubação existencial. oh vida.. (risos) aquela coisa de narrar na primeira pessoas, histórias curtas para uma memória curta e fraca. acho que isso sempre me fez uma pessoa mais feliz que triste, meus olhos são grandes demais e meu coração também, mas meus dedos e minha memória são curtos de mais para fazer sentido escrever um romance de imensas páginas Tolstói, Faulkner e Hemingway fizeram tão bem, eu não faria melhor. não acho que sou melhor agora ou que fui melhor antes, a única pena é que as vontades já arrefeceram um pouco e me tornaram o que eu jamais sonhei ser, uma pessoa morna e cansada. o cansaço não é nem de longe uma desistência, mas é o estágio de permanência na teimosia, na constância lenta da forma mais absurda de resistir: VIVER. as notas de rodapé e os imensos textos de convencimento não nascem mais e nem têm mais espaço nessa cabeça cravejada de palavras como esquecimento, idade, menopausa, frio, chuva, tempo, cinza, nublado. já não sei se eu era mesmo solar ou se o lugar que eu nasci me impôs isso, são tantas coisas... o frio me faz sentir partes do corpo que eu nem lembrava que existiam, os banhos sem arrefecimento me lembram uma época de infância, o interior, as peculiaridades do campo e da vida interiorana, as coisas simples do ser ao invés do ter. o silêncio me faz recordar a maneira que meu avô olhava o horizonte, acariciando em silêncio sua bengala laqueada, sentado em sua poltrona manca, harmoniosamente calçada por um tronco de aroeira. tanta coisa que me passava aos olhos, hoje passam em câmera lenta (slow motion) em meu pensamento.

caminhei hoje pelo terreiro de passo, e vi os navios de cruzeiro entrarem pelo Tejo adentro e é assim que me sinto quando me enfiam verdades goela afora, quero gritar, quero berrar descontrolada e chorar como uma criança mimada, que não sou. as palavras latejam no meu peito e querem sair como escarnio e enfrentamento, mas estou cansada demais para argumentar, para formar qualquer linha de pensamento para puxar uma reflexão, para acender algum pensamento dicotômico, mas estou realmente exausta. calar é estar vencida?

(...)









as canções que um dia me fizeram chorar já não tocam mais, encontrei um refúgio nas ondas, meus olhos procuraram minha terra

(...)




nunca param os sentidos das esperas, e mesmo que fervilhem por aqui, sem ao menos um substantivo para adjetivar um ato, estou. ahhh essa ânsia de contar tudo para não deixar morrer nada, nada. as teclas pulam em meu rosto como se quisessem me estapear, quando a loucura volta à tona e não me chamem de louca que não gosto, só eu tenho o privilégio de fazê-lo, pois me assumo no momento certo, por enquanto tudo é engodo. não me levo a sério e também não tiro sarro de mim, meus sentimentos são nobres, embora a carne não seja tanto assim, ah, mais uma vez, e outra e outra a rir. são os velhos erros, que por hora parecem novos, embora sejam a singela repetição caótica em momentos aleatórios. são incontáveis as vezes que digo pra mim, "já vivi isso, isso é um dèjá vu"

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