(...)
o barulho dos tiros soava como fogos de artifício na passagem de ano-novo, todos alegres que nem se davam conta de que tudo que sobe uma hora desce, e a chuva de balas achadas seria inevitável. a vista era estonteante e disforme, a casa ironicamente pendurada em um penhasco, tinha vista alta para o mar aberto, a sensação dos tempos que passamos juntos era inebriante, parecia que eu havia secado duas garrafas de tequila, e estava sóbria o tempo todo. a rotina não existia e até o ar era mais denso do que o normal, às vezes sentia tijolos no peito e cimento nos pés. os apontamentos eram retos e específicos, embora a vida pudesse ser comparada a um conto de fadas, sem comida. "os artistas morrem de fome", essa foi a fala que mais escutei durante a vida e naquele momento tudo fez sentido, porque a comida por vezes não era necessária, era supérfluo. o cenário era quase perfeito e a obra de arte era a representação em pedra de uma cabeça cortada dentro de um saco plástico. eu poderia dizer que é uma alegoria, esculpida em obsidiana negra. mas era só a cabeça? em meu pensamento só cabia a pergunta: "e lhe cortaram a língua?". a representação clássica do que fala demais: sem cabeça e/ou sem língua. sinto que a visão de "amor contemporâneo" está guardado nessas caixas de papelão, essas de supermercados, que embalam sabão e detergente, dessas que se descarta facilmente e que são reusadas, onde se joga toda a sujeira e podridão. naquele apartamento com vista pro mar, uma lata de refrigerante comum feita de prata ironizava o descartável exposta numa estante de vidro e o reluzente móbile de ossos rodava alegremente ao vento, lembrava a inquietante sensação de brevidade. em certos dias, ele esculpia lápides de mármore, copiava os nomes dos garotos assassinados no massacre de Ayotzinapa, alguns anos antes. a estrutura de um arquétipo dificilmente traduz o que ele nos traz intimamente. os calos e as cicatrizes faziam-me cócegas quando ele me tocava, e eu deveria dizer algo? deveria ter lhe contado de meu sentimento? eu conheceria as mãos dele de olhos fechados. reconhecia a dor dele e ao pensar no momento em que a pedra e a pele, os ossos e os nervos se misturavam em uma só matéria dava-me câimbras e espasmos de quase dor. ao imaginar a reconstrução lenta de cada tecido daquele, na busca de recuperação de si e do que se perdeu, não posso esboçar a agonia do sentimento que me toca ferinamente, mas ao me tocar o quebrado, o devastado, o calo, a cicatriz da ferida, só causava-me riso e não era sarcasmo, e muito menos ironia. poderia ter aberto meu coração, como aquelas mãos desfiguradas partiam os figos-da-índia, talvez se eu tivesse contado tudo, todos os detalhes, se eu não tivesse sido tão distante, talvez os acontecimentos fossem outros. mas, sabemos que as coisas primais não mudam e que o fim é o fado e não há nada que possamos fazer contra isso. retiramos os aeromodelos pendurados no teto da sala, as filhas e o sobrinho se encarregaram de destruí-los pouco a pouco, mas eu carreguei a responsabilidade de retirá-los dali. já as travas e as hastes de escalagem permaneceram como herança também expostos na estante. relembro que as mãos eram tortas e não era belo, falando da estética, se olhado como uma estátua de Doríforo, não agradaria a maioria dos olhos, embora o tamanho do falo fosse bem avantajado, mas as pernas eram finas e o torso fraco demais. se esculpido em pedra bruta e de enorme valor comercial seria o busto de algum cientista louco ou um contador de histórias sem fim, mas me pergunto e se a estátua fosse oca? antes de dormir entoava-me cantigas de ninar e fumava um cigarro de cravo, que sempre que sinto o cheiro lembro-me. talvez mármore de carrara, que envolve um suposto coração que não aparece na escultura. uma acidente desfigurou lhe o corpo. quase o matou, na verdade, e resistente como ele era se recuperou e continuou a escavar a pedra, uma extensão daquela que lhe esmagou alguns dedos, parte do braço e de da perna. a lucidez era um traço dele, na maioria de meus amantes essa é uma característica bem vincada. por vezes o amor que conheço passa por uma espécie de admiração, quase inveja. talvez inveja, como diria Freud, a castração. aquele que tem tudo, o filho do arquiteto admirável, o rapaz cortejado e forte que supostamente nada nem ninguém derrubaria, a joia da família burguesa interiorana com ambições de alto status social. uma noite o ouvi chorando, e supus erroneamente que poderia ser algo que eu disse, e sei que minhas palavras cortam mais que navalhas afiadas na mão de um estripador. o homem traído primeiro pela soberba e depois pelo desejo. o estudante de belas artes, o viril, o que poderia mudar a história de um sobrenome falho? a casa em que vivemos era a casa dos pais, que foram cremados e cuidadosamente colocados dentro da segunda gaveta da cômoda do quarto. certa feita os vi dele aos pés da cama nos observando foder, éramos os três, cada um observando nosso particular Doríforo. o pai que via-se no filho espelhado, o filho que não era arquiteto, que doou o corpo e a alma para a pedra e a vergonha. a mãe que via o filho dourado, e a esperança da perpetuação dela em outra fêmea. não consegui assentar meu papel naquele plano, não sei ao certo se eu era Perseu ou se eu era a Medusa. mas sei que em mim, a pergunta retórica que permanece: que mundo é esse em que vivemos, onde quero ser invisível e naquele momento tão íntimo me sentindo uma lata de refrigerante esculpida em prata ou mesmo uma caixa de papelão descartável, porque a visão dos pais dele ainda me atormenta mais que a escultura da cabeça decapitada esculpida em obsidiana?
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