quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Al

 por muito tempo minha rotina era um quarto, uma cama e um estágio louco por escrever e colocar os pensamentos para fora, um exorcismo, ou uma tentativa para que eles não desaparecessem como névoa, e essas histórias que nunca contei ficaram adormecidas pela vergonha e pudor de colocar em palavras, o asco que eu tinha de tudo que repeli: a vida. difamei a todos que invadiram minhas fronteiras para me mostrar que assim eram as coisas, que assim era isso que chamam existência. alegria que não me tocava, eu fingia, fingia na maioria das vezes, ninguém nunca me pegou desprevenida, ninguém me encontrou dentro da última camada da boneca russa. fingir alegria, cuidado, empatia é muito fácil, demonstrar interesse repentino por estranhos, por pessoas distantes, por desconhecidos "íntimos" era quase um hobby, fingir amor e proximidade também. falar sobre assuntos aleatórios, trocar impressões sobre livros, sobre momentos históricos, casos de família, fofocas e chismes não era obstáculo, mas eu preferia ficar sozinha. preferia rir dos outros na minha solidão acalantadora, me protegia do mundo e me fazia mais forte. não tive e não tenho interesse no outro, não sou curiosa sobre a vida alheia e muito pouco fora de minha esfera íntima e pessoal me interessa. quando criança hora ou outra eu me dava o desfrute de comungar com as pessoas mais distantes ou quando chegavam os tios e primos que viviam fora daquele lugar horrível, eu tentava ou treinava uma certa interação, mas era mais um exercício intelectual, uma absorção de biomas mais distantes e supostamente alcançáveis. e hoje percebo, com uma certa dificuldade em admitir, que não era tão ruim assim. eu queria morar perto do mar, queria ouvir algo que não fossem sapos coaxando e meus pais gozando no quarto ao lado, era deprimente. 
não me lembro de ter deixado esse estado torpe de distanciamento, como se até eu (por vezes) fosse terceira pessoa de mim, tentando entender como as pessoas a minha volta se encaixavam, de maneira harmoniosa ou não e aquele silêncio que quase acusava os que estavam permanentemente calados. o fluxo funciona e nada faz sentido, pelo menos para mim não faz, parecem um amontoado de conveniências, os atos são antecipados pelo pensamento comum: "o que vão pensar sobre isso? como será o julgamento dos meus perante esse meu apontamento, ou diante de meus atos?" particularmente, não me importo com o que pensam de mim, isso não molda meu comportamento ou meu caráter, e me afasta da conveniência social.
 tenho a impressão que nada muda as pessoas em seu âmago, digo de novo e reforço: nada muda profundamente a natureza primal do indivíduo, nada ensina, nada. nem mesmo sob a pregação diária, a lavagem cerebral, por mais que afirmem isso, eu não consigo acreditar. como medir isso também me parece uma incógnita, saber se hoje alguém é melhor ou pior do que há um tempo atrás, como comparar sua existência agora com a de anos idos, em outra perspectiva, em outro enquadramento, ou tendo em vista outros focos e outras referências e potências fraquezas?
nasci e permaneço um animal ruminante, quase pacífico, não mordo com força, só o suficiente para não me montarem quando não quero, para desistirem me adestrar quando estou indisposta e/ou para afastar os inconvenientes. deveria ter uns dez estômagos, só tenho um e lento. demoro processar tudo o que não consigo engolir, então está aí a explicação do ciclo de mastigar, regurgitar e ruminar constante. esse ruminar existencial, vácuo de atitude e de reação que respondo dizendo "não é nada" que resolvi por conveniência chamar de "vazio" impera. não que seja realmente vazio, não que seja realmente nada, mas enquanto falta-me o termo certo para definir é assim que irei me referir, para não voltar à explicação enfadonha e particular do buraco negro - "ruminar".
me sinto protegida dos outros quando estou atrás de uma máquina de escrever, atrás duma folha em branco que me confronta, estar ali mergulhada no meu silêncio ensurdecedor, duvidando de mim mesma, dizendo-me em meio a tortura dilacerante (que inflijo a mim mesma) que eu sou uma impostora, não sou escritora e que nada em mim é verdadeiro e relevante.
ardo em dor e febre e duvido de minha dor, duvido de meus sentidos, e acho que estou fingindo sem pudor, e sou desacreditada por mim (mesma), antes que os outros o façam.
todos os dias busco respostas em mim, meu tribunal interno me inquire e me cobra todos os dias, antes de dormir. as minhas própria ausência dos outros, apaziguam as minhas necessidades, não faço tanta falta assim, embora me cobrem presença. não me lembro de ter sido livre ou totalmente verdadeira com ninguém, há sempre essa reação adversa sob a pressão de que eu responda bem a tudo que me enfiam goela abaixo e cu acima, me protejo com esse manto, com esse ato dissimulado de dizer o que querem ouvir e ser quem quer que eles queiram que eu seja. um camaleão que se encobre na invisibilidade ou na farsa do inexistir, para não ser atacado ou devorado por espécies maiores e mais poderosas.




(...)




(o desejo)

o desejo me moveu por todas as arestas da minha vida, pelos poros, pelos olhos, por tudo de belo e excitante que vivia fora. eu nunca fui bonita, essa beleza em que se inspiram os poetas, os pintores, os artistas, eu era desejável, mas não bonita. sabe a amiga feia que alguém leva para a festa para acompanhar, aquela que é calada e distante o bastante para que deem um close-up e ela esteja invisível atrás da protagonista? essa era eu. não é um reclamo, não é um vitimismo, é só a fotografia mesmo. nos bailes da minha juventude não era a primeira a ter par e nem a última e também não esperava, e eu descrevo isso porque explica bem meu estágio: eu não me importava, e ainda não me importo. sou negligente com os meus, amo e desejo, mas depois de ter volto à letargia do desimportante. e aí entra a escritora (em terceira pessoa) que usa tudo como subterfúgio, como fuga, para ensimesmar-se. e eu envolvida no meu egóico casulo, em minha própria desimportância vazia e contemplativa: olho, observo, aquieto-me na quase inexistência vazia de uma vida sem rompantes. eu vejo e olhar não me custa nada, olho para dentro, para fora , para além e não com soberba, mas com um pacifismo que me parece que nem a morte seria dolorosa, porque enquanto processo, eu continuaria espectadora. quando desejo, tudo mais perde o sentido, é uma sanha da caça, do possuir, do tomar. um querer descontrolado, uma ânsia avassaladora de ter, uma conquista/aniquilar. não sei se já amei, friamente olharia como uma fúria que nasce do querer exacerbado e raro, quero tão pouco, com mínima frequência, limitadíssima potencia, que não sei explicar, todos coelhos: frágeis. uns se gabavam de belezas estonteantes, outros de quantidade de mulheres/homens, outros da maneira que traziam consigo o orgulho de não se desvencilharem deles. todos frágeis a sua maneira, e aqui posso assinalar a minha vulnerabilidade, eu não sou acessível do mesmo modo e isso é uma comorbidade. é quase impossível explicar de mim já que procuro em vão encontrar a correta descrição do que sinto e do que escrevo, mas mesmo sabendo da dificuldade de encontrar termos, eu tento com rigor. antes de começar não sei onde vou, sei que vou escrever mas não sei para onde vai a escrita, por onde as personagens me levaram ou me desvelaram, o certo é que elas me destroem, me matam aos poucos em suas angústias, tudo é angustiado, as pessoas berram por ajuda, e eu assisto, como se eu mesma não precisasse de tal ajuda. quando nascem não são elaboradas, não são complexas, não me trazem muita coisa e a medida que  são confrontadas com a falta de planos, quando me deparo com a folha de papel em branco, a guerra se faz. é muito intenso, é muito dolorido, é irônico e satírico e quase tão meu que quase acredito que sou eu. mas estou vazia, lembra? a mas, depois de escrever não tenho consciência do que foi, do porque chegamos ali, eu e a personagem: escrever é deixar vir um desconhecido de nós mesmos. o desejo é o oposto disso. depois que o fervor do desejo é apaziguado, depois de arder, queimar e não sobrar nada mais que cinzas, depois de não tem mais combustível ou comburente tenho a sensação que tudo acaba. é necessário o luto para que todas as vozes se calem, para que o mundo decante tudo que se elevou com o turbilhão e a queima, para enfim recomeçar. e assim são minhas vivências amorosas também. tudo começa da pedra e termina na pedra, como haveria de ser diferente?



(melancolia)

´pois não encontrei um substantivo melhor', o elo que nos faz iguais, se é que algo nos faz iguais. todos que me julgam distante têm razão, e assim como eu há uma razão para ser ou para responder (reagir) a  algo. em algum momento em minha existência o objetivo, a meta primordial era/é encontrar a palavra certa, e  por vezes isso se torna ou é mais importante que viver. e ali parada, sentada na areia da praia, num dia frio, onde ninguém perturba a solidão, onde o grito da gaivota parece ressoar, conversando com a água do mar, exatamente ali, naquela quietude matinal encontrei uma alegoria perfeita. só eu suporto meus silêncios, no desconforto estou sozinha, não há quem tenha meu íntimo e profundo. 



(a gêmea)

Virgínia está morta, Clarice está morta, Silvia está morta e os papéis estavam espalhados por uma penteadeira enfeitada com uma rosa seca, em um vaso de porcelana, tudo mais estava impecavelmente arrumado. o silêncio era profundo e calmo, as bonequinhas de porcelana me encaravam sem parar e o espelho também. outra vez, e outra e mais uma, quantas delas virão a mim e me rasgarão? ela está morta, a venta entreaberta, a boca fechada, as mãos fechadas, como quem tentou se agarrar pra não sair, como pode um ser insensível como eu, chorar? os braços estavam abertos, e poderia ser só uma visão. a desesperança e a tristeza caíram lhe sobre a testa alongada. senti as mãos, pequenos dedos, pequenos e mal formados, ouço sua voz fininha e baixa, queria gritar, ela está morta, ela está morta e talvez isso preenchesse minha alma vazia, talvez eu tivesse uma esperança, aquela voz fina e silenciosa que só ecoava na minha cabeça tentava me consolar, mas não tinha remédio. o certo é que eu tinha a outra, a que ficou em meu ventre e lutou mais um pouco. pra que? me pergunto, pra que ela lutou? para ser quem é hoje, para me odiar impunimente? para me confrontar com minhas fraquezas e com a minha mesquinhez? pra me mostrar o quanto sou insuficiente e descartável?
era meu sangue que a cobria, era meu ventre que ela rasgara, minhas vísceras eram ela. 


(a outra filha)


essa não me queria, não me amava como a gêmea, essa me desdenha por completo e esquece que a concebi e a trouxe entre minhas entranhas por 27 semanas, desconhece o quanto me prejudicou, desconhece o quanto me maltratou desde o princípio e tudo que. involuntariamente, me fez perder. não a culpo e escrevo para deixar claro que eu não esqueci, embora a tenha perdoado de mim.




 (o ciclo)

a volta da melancolia, talvez o pensamento de que as coisas voltaram ao estágio inicial, mas não da maneira que algo nasce, cresce e morre e cumpre seu papel. há uma força invisível e inquisitória que me censura os papéis da vida quando não estou escrevendo, quando não estou em luta severa com a folha em branco, quando não quero abrir os olhos, quando não quero exercer nenhum personagem cotidiano, a filha, a mãe, a esposa, a escritora em estágio de criação. se não estou escrava/devota à escrita a escrita me acusa, nada me afeta mais que isso, absolutamente nada. queria mesmo saber se é fúria ou se é mais um personagem, esse que se esconde em várias facetas e comanda os bonecos da marginalidade e se autocompleta, sem se justificar se orienta até o ponto que nada me fere, nada me intimida, nada me derruba, com exceção da escrita (do ato de estar escrevendo). nada faz sentido, as coisas se perdem por eu não ter consciência de nada, eu só me entendo por completo quando estou exercendo meu ofício, o mundo não faz sentido sem a linguagem escrita, sem a semiótica escrita, sem a coerência soletrada e editada em  palavras. a vida não tem sentido sem a escrita. algo invisível e indivisível de mim paira sob minha consciência mais obscura e mais desconhecida e como sempre fugi de mim, tentei escapar dessa coisa que paira, entra e sai de mim, para satisfazer a mim, ou essa parte de mim que anseia pelas histórias que conto. é um exercício estranho e incontrolável, e na maioria das vezes só se manifesta em ambientes controlados e muito confortáveis e com ares de lar, de pertencimento dentro desse mesmo sentimento, é difícil explicar. no desejo não consigo apaziguar todas as dores contidas dentro desse medo que me aprisiona, mas ao mesmo tempo me acolhe e me suga as forças até eu não querer sair mais dele. não tenho uma vida atribulada e estou bem, conforme as doenças de meu coração ainda me deixam um tanto debilitada, não sou plena, a plenitude deixou de existir quando amei pela primeira vez, não sei bem se é isso, pode não ser. o amor não é a causa, até porque vejo o amor como a predação, a caça, o troféu. uma conquista, um amante, um retrato na parede, o desejo que avassala, queima até virar pó, e nunca foi diferente disso, quem sabe isso mude. o amor também é essa pérola que nasceu de uma dor, uma fila morta, uma filha viva, uma filha que me libertou de ser mãe e a outra que me aprisiona nesse papel mesmo me rejeitando. uma vida vazia nunca estou presente, mesmo aqui é um estado de torpor e ausência


(,,,)

o vazio não se explica em palavras, conversar sozinha não conforta, a escrivaninha caótica chamava diariamente para o velho confronto: a folha vazia e o caminho inóspito que nunca saberia atravessar sem minhas máscaras e o destino que nunca era esperado antes de estar lá. não sei onde vou, não sei onde as palavras por elas me levam, pela mão, ás vezes, pelos pés e arrastada às vezes. sou aquela mulher arrastada pela via pública, em pleno século vinte um e não saio viva do arrasto. uns dizem que eu me protejo em minhas personagens e dentro de minhas próprias histórias, em meus contos e poemas, na ficção, outros dizem que sou uma feminista hipócrita, outros que sou uma machista disfarçada. fui acusada muitas vezes de fugir da realidade, de usar minhas personagens para responder ou me justificar, de usar minha escrita para criar uma distância enorme entre mim e as outras pessoas, no geral todas as pessoas mais próximas de minha convivência, incluindo meu maior tesouro: minha filha. já tentei descrever esse vazio da página em branco milhões de vezes e no fim a luta é ganha pelo lado de lá, nunca por mim. quantos escritores hão de ter essa mesma teima, essa mesma sina, essa idêntica tragédia? o que importa é escrever, aliás nem escrever, e colocar em palavras não é uma explicação, porque já sou velha e não preciso me justificar de nada que faço. são exceções em mim: o desejo e minha filha.

George

(...)

o barulho dos tiros soava como fogos de artifício na passagem de ano-novo, todos alegres que nem se davam conta de que tudo que sobe uma hora desce, e a chuva de balas achadas seria inevitável. a vista era estonteante e disforme, a casa ironicamente pendurada em um penhasco, tinha vista alta para o mar aberto, a sensação dos tempos que passamos juntos era inebriante, parecia que eu havia secado duas garrafas de tequila, e estava sóbria o tempo todo. a rotina não existia e até o ar era mais denso do que o normal, às vezes sentia tijolos no peito e cimento nos pés. os apontamentos eram retos e específicos, embora a vida pudesse ser comparada a um conto de fadas, sem comida. "os artistas morrem de fome", essa foi a fala que mais escutei durante a vida e naquele momento tudo fez sentido, porque a comida por vezes não era necessária, era supérfluo. o cenário era quase perfeito e a obra de arte era a representação em pedra de uma cabeça cortada dentro de um saco plástico. eu poderia dizer que é uma alegoria, esculpida em obsidiana negra. mas era só a cabeça? em meu pensamento só cabia a pergunta: "e lhe cortaram a língua?".  a representação clássica do que fala demais: sem cabeça e/ou sem língua. sinto que a visão de "amor contemporâneo" está guardado nessas caixas de papelão, essas de supermercados, que embalam sabão e detergente, dessas que se descarta facilmente e que são reusadas, onde se joga toda a sujeira e podridão. naquele apartamento com vista pro mar, uma lata de refrigerante comum feita de prata ironizava o descartável exposta numa estante de vidro e o reluzente móbile de ossos rodava alegremente ao vento, lembrava a inquietante sensação de brevidade. em certos dias, ele esculpia lápides de mármore, copiava os nomes dos garotos assassinados no massacre de Ayotzinapa, alguns anos antes. a estrutura de um arquétipo dificilmente traduz o que ele nos traz intimamente. os calos e as cicatrizes faziam-me cócegas quando ele me tocava, e eu deveria dizer algo? deveria ter lhe contado de meu sentimento? eu conheceria as mãos dele de olhos fechados. reconhecia a dor dele e ao pensar no momento em que a pedra e a pele, os ossos e os nervos se misturavam em uma só matéria dava-me câimbras e espasmos de quase dor. ao imaginar a reconstrução lenta de cada tecido daquele, na busca de recuperação de si e do que se perdeu, não posso esboçar a agonia do sentimento que me toca ferinamente, mas ao me tocar o quebrado, o devastado, o calo, a cicatriz da ferida, só causava-me riso e não era sarcasmo, e muito menos ironia. poderia ter aberto meu coração, como aquelas mãos desfiguradas partiam os figos-da-índia, talvez se eu tivesse contado tudo, todos os detalhes, se eu não tivesse sido tão distante, talvez os acontecimentos fossem outros. mas, sabemos que as coisas primais não mudam e que o fim é o fado e não há nada que possamos fazer contra isso. retiramos os aeromodelos pendurados no teto da sala, as filhas e o sobrinho se encarregaram de destruí-los pouco a pouco, mas eu carreguei a responsabilidade de retirá-los dali. já as travas e as hastes de escalagem permaneceram como herança também expostos na estante. relembro que as mãos eram tortas e não era belo, falando da estética, se olhado como uma estátua de Doríforo, não agradaria a maioria dos olhos, embora o tamanho do falo fosse bem avantajado, mas as pernas eram finas e o torso fraco demais. se esculpido em pedra bruta e de enorme valor comercial seria o busto de algum cientista louco ou um contador de histórias sem fim, mas me pergunto e se a estátua fosse oca? antes de dormir entoava-me cantigas de ninar e fumava um cigarro de cravo, que sempre que sinto o cheiro lembro-me. talvez mármore de carrara, que envolve um suposto coração que não aparece na escultura. uma acidente desfigurou lhe o corpo. quase o matou, na verdade, e resistente como ele era se recuperou e continuou a escavar a pedra, uma extensão daquela que lhe esmagou alguns dedos, parte do braço e de da perna. a lucidez era um traço dele, na maioria de meus amantes essa é uma característica bem vincada. por vezes o amor que conheço passa por uma espécie de admiração, quase inveja. talvez inveja, como diria Freud, a castração. aquele que tem tudo, o filho do arquiteto admirável, o rapaz cortejado e forte que supostamente nada nem ninguém derrubaria, a joia da família burguesa interiorana com ambições de alto status social. uma noite o ouvi chorando, e supus erroneamente que poderia ser algo que eu disse, e sei que minhas palavras cortam mais que navalhas afiadas na mão de um estripador. o homem traído primeiro pela soberba e depois pelo desejo. o estudante de belas artes, o viril, o que poderia mudar a história de um sobrenome falho? a casa em que vivemos era a casa dos pais, que foram cremados e cuidadosamente colocados dentro da segunda gaveta da cômoda do quarto. certa feita os vi dele aos pés da cama nos observando foder, éramos os três, cada um observando nosso particular Doríforo. o pai que via-se no filho espelhado, o filho que não era arquiteto, que doou o corpo e a alma para a pedra e a vergonha. a mãe que via o filho dourado, e a esperança da perpetuação dela em outra fêmea. não consegui assentar meu papel naquele plano, não sei ao certo se eu era Perseu ou se eu era a Medusa. mas sei que em mim, a pergunta retórica que permanece: que mundo é esse em que vivemos, onde quero ser invisível e naquele momento tão íntimo me sentindo uma lata de refrigerante esculpida em prata ou mesmo uma caixa de papelão descartável, porque a visão dos pais dele ainda me atormenta mais que a escultura da cabeça decapitada esculpida em obsidiana? 






Jim

 Jim, meu querido,

a ironia dos atos a seguir habitam numa promessa que havia feito a mim, em silencio. prometi que por mais que fosse uma vida difícil eu jamais me entregaria à prólogos, mas com a maturidade entendi que a vida é um prólogo da morte, e que postulamos tudo aquilo que vivemos como um prologar da existência. nesses atos não adianta lutar contra a vida, nem tampouco tentar ser invisível, não funciona. ou melhor dizendo, se for possível eu não consegui. sobre os epílogos, talvez por você não ter tido tempo para experimentar, vivenciar, regogizar-se e sorver a essência dos teus, e ser grato por tudo que o estar proporciona, eu prometi reverenciar e degustar os meus por dois. já que sua presença em mim é a única constante em minha "louca vida, vida breve", como bem cantou Cazuza... sem querer, as palavras que se seguem podem ou devem, não sei ainda, se tornarem meu epílogo, assim ofereço estas palavras a ti, com um au revoir, mon amour, mon ami...


 ato I - dos dias que destroem as noites

enquanto os senhores se vestem
ele se despe para mim
tão limpo e puro
que diria um inocente

[aqui ninguém é inocente]

sob os olhos de quem 
também se despiu
com o sol a pino
para que lhe vissem 
as imperfeições

[aqui ninguém é perfeito]

os dias raiando sem pressa
as horas passando sem medo
nem a rotina fria incomoda mais
a leveza das horas traz refúgio
à duas almas cansadas

[e aqui, ninguém se cansa]

paraísos artificiais


esse ventilador que observa o quarto, em quase cento e oitenta graus, desconhece o clima dos trópicos,  desconhece a temperatura e a anatomia dos corpos nus sobre o colchão. depois do gozo não importam as cotovias, a aurora se arrebentando, as nuvens, o vento, e muito menos as flores no campo. as carnes tremem, há um contentamento em si, que não ultrapassa a barreira das peles, em sentido. só se sente o outro enquanto há algo de si guardado para ele. mas os dias passam lentos e a inquieta rotina leva os amores para longe, na vertigem da ilusão, mais por mais, menos não é nada, e os pódios são aceitos, não como farsa, mas como pequenas vitórias.

ato II - das noites que dividem os dias


a derrocada em busca de novos tempos
novas eras, as revoluções, meu amor...
todos eles se perderam no tempo em que a gente se perdeu
na doçura fluida e reconfortante de nossos gozos
a libertação da carne nas pequenas mortes
na essência de ser separado de si mesmo
na lama e no deserto alheio

são línguas, bocas, falos e conas
a se deliciar mutuamente na febre
frenética e insaciável
ou até o próximo jato de porra
os sons, o calor, o delírio
tudo para isso agora
sem demora
nós

as máquinas pararam no limiar do segundo
todas as janelas e portas se fecharam
nada se movimenta
se não nós
um dentro do outro
um no centro do outro
o vórtice da criação
e destruição do universo
da vida

amanhã poderão vir outros corpos
amanhã poderemos ser apenas lembranças
memórias perdidas 
sob a sombra do esquecimento
mas, enquanto não, ainda
há o furor do desejo
que por vezes batizamos amor
e somos

quem terá coragem de dizer que não é amor? e revirar os olhos em delírio enquanto tudo mais estraga e desvanece? quem são os animais que não se entregam ao desejo, quando não há motivos para se defender?
enquanto a gosma impura da saliva de quem cospe ódio e ira, anseia em trabalho duro e esforçado ao fim do próximo, o que falta a esse que não tem satisfação na gana de possuir ou ser possuído pelo que não se pode controlar?
senhores, eu vi os olhos da morte e ela me encarou sorrindo, e ressoava aquele sussurro eu vim te buscar", eu não fui com ela, eu ainda não quero ir com ela. há de se escolher ficar envolto e mergulhado nessa escuridão acolhedora, disforme, prazerosa e profunda. escolher os prólogos e adiar o fim, na maioria das vezes não nos dão tempo para epílogos. e enquanto a grande certeza deve ser paralisada, jamais esquecida.




ato III - tente correr


há uma linha percorrida
e tanto por percorrer
para chegar onde?
para alcançar o que?

é ainda os olhos
de quem está por nascer
carrega ainda a dor
de quem está prestes
a morrer

e esse percurso íngreme
de estrada difícil
farto de escassez
a fome mata
o desamor mata

enquanto o desejo enterra
enquanto a esperança ludibria
enquanto a morte ri
e espera

então com medo
você corre
a imagem daquele filme
com o conselho:
"corra, Forest, corra"

e sem ponderar
sem processar
sem sentido 
"você corre
e morre na BR 3" 

as estradas levam aos espaços mais desejados, aos recôncavos mais obscuros e às vezes em lugares que assustam, ferem e matam. começa-se pelo bem que as coisas proporcionam, fugas talvez e no fim entende-se que qualquer coisa em excesso pode ser perigosa. o que persegue é a vertigem da primeira sensação, a corrida para tentar escapar de um caminhão carregado avançando em sua direção, e as luzes invadem os olhos, antes de ser esmagado pela força das coisas mais pesadas e menos libertas que você. quando suas merdas te dragam como areia movediça, lama, lodo, tudo te puxa para baixo, para o sujo, para o feio, e os muros parecem menos duros quando você se joga sobre eles, contra eles, através deles, assim é.


ato IV - tente se esconder

uma trágica lembrança 
de que somos humanos
e como tal vulneráveis
há dias bons e dias ruins
e num desses dias ruins 
pode ser considerado louco

a máscara da loucura
irá te disfarçar e até te esconder
mas não pelo tempo suficiente
para a tua completa recuperação
os olhos moles e o choro à vista
não te fazem fraco
não te fazem menor

a máscara da inferioridade
irá te diminuir e até te esconder
mas não pela altura suficiente
para que a tua real figura 
se mostre do tamanho que é
ter vergonha de si e se sentir medo
não te fazem menos
não te fazem nulo

a máscara da inexistência
irá te paralisar e até te cobrir
mas não pela totalidade suficiente
para que o teu existir
se esvaneça entre os teus
abandonar-se e desistir
não te fará outro
não te apagará

o fio que produzimos com o que somos e do que nos cercamos, nem sempre é seda. algumas lagartas fazem seus casulos com folhas, restos de galhos secos, o que somos em essência e o que nos rodeia, na maioria das vezes é matéria prima para nossos casulos. a minha cura veio da sua falta, eu murchei, me reduzi, me invisibilizei, sofri e me fechei. descobri minha voz, meu amor próprio e tudo que doía aqui. me voltei para dentro. e teci a mais linda renda que pude, a agulha que poderia me ferir foi a ferramenta que me ajudou em meu processo, me dei colo, me amei como nunca e me protegi do mundo, por muito tempo. talvez, por tempo demais.

ato V - a travessia para o outro lado

a metamorfose das estruturas
também não garante
que o primal é mortal
já não importa o resto

o signo ainda que não
permaneça estático
e irredutível não
perece

o verme, a larva
habita dentro do casulo
trabalha dormente
sob uma pele arrebentada

o primeiro inseto
ainda que 
profundamente transmutado
habita o segundo


há uma necessidade do tudo ao mesmo tempo, agora e já, pois as coisas se perdem, as coisas apodrecem e a matéria fresca que preenche a vida derrete, deteriora e desintegra, assim somos nós, assim é a vida. o que fica é a poesia, é o ritmo que demos e damos ao que nos rodeia, é a maneira que respondemos aos nossos dilemas mais profundos. as escolhas que fazemos permanecem para além de nós mesmos, para além da existência, para além do palpável e visível. o seu polegar passeava sobre minga mão fechada quando estávamos em silêncio, quando o contentamento era transbordo, e inundados de presença e confiança tudo era palpável e digno de toque, até o ar parecia trazer aquele caminho entre sombra e luz, tocando o porvir. depois que as asas tomam forma e se eriçam para o voo, não há nada que faça a borboleta ser lagarta, não há nada que satisfaça mais que o voo. quem se contentaria apenas com as folhas, se pode ter as flores e o vento?


ato VI - seguimos nossos prazeres (instintos)


permanecem vivos aqueles tolos
os que buscam as flores
ah, amorosos bobos
que se vingam em si
para não machucar o mundo
ser o bobo que não segura
o que não é teu

o ser que deixa bailar o vento
que muda constantemente
e rasga as próprias entranhas
para relembrar a dor das asas
cortando de dentro para fora

o ser tolo que nunca esquece da feiura
que trazia em si em larva
da escuridão e frieza solitária
da construção do casulo
do gozo do voo

o tolo que rasga as amarras e que
se deixa levar pelo vento
em busca a liberdade
e as flores e não esquece
de nada

e eu sou um tolo


Clarice tem um texto sobre o bobo, nada que eu escrever soará como ela e ninguém pode escrever como ela, mas sim, me sinto como naquele escrito, que se sentir bobo não é tão ruim. devo confessar que essas minhas escolhas de liberdade, abrindo espaço para que as pessoas à minha volta sintam abandono, por vezes me atormentam, mas a resposta perfeita já me foi dada por você, há muito tempo atrás. recuso-me a abandonar-me, que os outros façam é até humano que eu aceite, é até bem útil (às vezes) que eu aceite, mas jamais me abandonarei, apenas por breves pausas, apenas por dar-me espaço para sentir profunda e puramente o que existir me entrega. ser comum, ser invisível me acalanta, mas aos meus olhos eu brilho intensa e não esqueço das promessas que fiz a você, eu não esqueço.


ato VII - enterramos nossos tesouros ali


as músicas que embalaram nossas revoluções
já não tocam mais
estão fadadas ao esquecimento
quando eu partir também
não sei quem és
e me perdi nesse mundo
cheio de ilusões
enquanto você
não teve tempo 
para epílogos
as areias do deserto 
dentro de ampulhetas
só nos lembram do tempo
que nos draga anos
e força

te percebo mais vivo que quando estávamos juntos, e o entardecer, o céu pintado de cores avassaladoras trazem teu nome e cheiro a mim. essa terra não pode ser odiada, pois é nela que descansas, e onde estão depositadas todas as nossas lembranças.





*
https://pt.wikipedia.org/wiki/Break_on_Through_(To_the_Other_Side)



Vincent



por muito tempo minha rotina era um quarto, uma cama e um estágio louco por escrever e colocar os pensamentos para fora, um exorcismo, ou uma tentativa para que eles não desaparecessem como névoa, e essas histórias que nunca contei ficaram adormecidas pela vergonha e pudor de colocar em palavras, o asco que eu tinha de tudo que repeli a vida. difamei a todos que invadiram minhas fronteiras para me mostrar que assim eram as coisas, que assim era isso que chamam existência. alegria que eu fingia, hora ou outra quando chegavam os tios e primos que viviam fora daquele lugar horrível onde vivi minha infância. e hoje percebo, com uma dificuldade enorme em admitir, que não era tão ruim assim. eu queria morar perto do mar, queria ouvir algo que não fossem sapos coaxando e meus pais gozando no quarto ao lado, era deprimente.
não me lembro de ter deixado esse estado torpe de distanciamento, como se eu fosse terceira pessoa de mim, tentando entender como as pessoas a minha volta se encaixavam, de maneira harmoniosa ou não e aquele silêncio que quase acusava os que estavam permanentemente calados. o fluxo funciona e nada faz sentido, pelo menos para mim não faz, parecem um amontoado de conveniências, os atos são antecipados pelo pensamento comum: "o que vão pensar sobre isso? como será o julgamento dos meus perante esse meu apontamento, ou diante de meus atos?" particularmente, não me importo com o que pensam de mim, isso não molda meu comportamento e me afasta da convivência social.
tenho a impressão que nada muda as pessoas em se âmago, digo de novo e reforço: nada muda profundamente a natureza primal do indivíduo, nada ensina, nada. nem mesmo sob a pregação diária, a lavagem cerebral, por mais que afirmem isso, eu não consigo acreditar. como medir isso também me parece uma incógnita, saber se hoje alguém é melhor ou pior do que há um tempo atrás, como comparar sua existência agora com a de anos idos, em outra perspectiva, em outro enquadramento, ou tendo em vista outros focos e outras referências e potências fraquezas?
nasci e permaneço um animal ruminante, quase pacífico, não mordo com força, só o suficiente para não me montarem quando não quero, para desistirem me adestrar quando estou indisposta e/ou para afastar os inconvenientes. deveria ter uns dez estômagos, só tenho um e lento. demoro processar tudo o que não consigo engolir, então está aí a explicação do ciclo de mastigar, regurgitar e ruminar constante. esse ruminar existencial, vácuo de atitude e de reação que respondo dizendo "não é nada" que resolvi por conveniência chamar de "vazio" impera. não que seja realmente vazio, não que seja realmente nada, mas enquanto falta-me o termo certo para definir é assim que irei me referir, para não voltar à explicação enfadonha e particular do buraco negro - "ruminar".
me sinto protegida dos outros quando não estou atrás de uma máquina de escrever, atrás duma folha em branco que me confronta, estar ali mergulhada no meu silêncio ensurdecedor, duvidando de mim mesma, dizendo-me em meio a tortura dilacerante (que inflijo a mim mesma) que eu sou uma impostora, não sou escritora e que nada em mim é verdadeiro e relevante.
ardo em dor e febre e duvido de minha dor, duvido de meus sentidos, e acho que estou fingindo sem pudor, e sou desacreditada por mim, antes que os outros o façam.
todos os dias busco respostas, meu tribunal interno me inquire e me cobra todos os dias, antes de dormir. as minhas própria ausência dos outros, apaziguam as minhas necessidades, não faço tanta falta assim, embora me cobrem presença. uma amante satisfatória por que dissimulo, uma filha querida porque cuido à distância, com palavras bonitas, uma mãe horrível, que abandonou, silenciou e isolou-se, não exercendo a maternidade como deveria, como poderia. 
não me lembro de ter sido livre ou totalmente verdadeira com ninguém, há sempre essa reação adversa sob a pressão, querem que eu responda bem a tudo que me enfiam goela abaixo e cu acima, ao contrário do que esperam, eu me protejo com esse manto, com esse ato dissimulado de dizer o que anseiam ouvir e ser seja lá quem quer que eles almejam que eu seja. um camaleão que se encobre na invisibilidade ou na farsa do inexistir, ou na improbabilidade de disfarçar quem sou, para não ser atacado ou devorado por espécies maiores e mais poderosas que eu.



Francis

I -  O Café XIX 

aquele café da esquina era meu ponto de referência, antes e depois de entrar para o trabalho. suas mesinhas e cadeiras de madeira repintadas imensas vezes, os quadros embaçados com seus posters velhos e amarelados, com aquelas pinturas dos anos setenta tinham a sua graça. nos dias de folga gostava de me sentar ali também, no meu canto cativo, ao lado da vitrine que dava para rua, apenas para olhar o dia passar. uma xícara grande de café, que esfriava antes de terminar de tomar e um pão francês embarrado com manteiga eram o bastante para um dia sem dinheiro e de pouca vontade de estar enfiada naquele quarto com banheiro que eu chamava carinhosamente de casa. as cidades de interior, mesmo deixando de ser vilarejos para habitar certas fábricas de coisas pouco úteis traziam certo movimento a lugares pacatos, como a minha cidade natal. era ali que gostava de ler os livros que pegava na biblioteca municipal, era ali que meu tempo passava lento e com certo prazer.
me sentar ali e observar era o prazer que me cabia, como se eu caminhasse invisível em meio a todos sem ser vista, ou percebida.
 (...)
achava engraçado a maneira que as moças da minha idade se comportavam, gastando o dinheiro que não tinham no salão de beleza e na boutique/brechó, no centro da cidade. numa guerra afiada e atroz, numa competição animosa por olhares, requerendo apenas o interesse dos rapazes. pobres moças, se esgueiravam sob os olhos deles enfeitadas, desfilando seus atributos falsos, roupas apertadas, com aqueles ares de lantejoulas de segunda mão, sem brilho para os desdém de quem nem queria estar ali enfiado naquele fim de mundo. e depois de serem usadas e desprezadas como o papel do pão, que têm sua serventia rápida, enquanto está tudo quente e macio, destilavam seu veneno umas nas outras, por pura miséria humana.
me sentia estranha, me considero ainda uma criatura de hábitos e gostos fora da caixa, não sei dizer ao certo se é uma impressão totalmente particular ou se as pessoas me veem diferente das outras, me via na personagem de filme de terror: "Carie, a estranha", que não era malvada de todo, mas estava muito magoada com o mundo que a rodeava e diante de tantas mudanças anímicas e da extrema dificuldade em se adaptar depressa ia se tornando mais e mais desconectada do que a rodeava. e quanto mais essa mudança íntima e pessoal escalava mais reforçava a sua ira e revolta num ciclo vicioso, até que detonava em uma explosão vingativa sobre tudo o que ela estranhava ou desgostava. 
ser diferente, não seguir a manada dos cordeiros onde está inserido não é bem visto ou aceitável, não pode mudar o jogo, não é permitido ser diferente e sendo exceção, na maioria das vezes, sabe-se que a rejeição e a punição são garantidas, ninguém sai impune por não se adaptar. discutir com o sistema imposto, discutir com as regras, ou sendo mais objetiva: subverter o que já lhe é imposto é muito perigoso para si, eu paguei para ver.
Carie não era estranha, olhando pelo prisma atual, ela era apenas uma menina solidificando sua personalidade, mas por ser incompreendida responde, mesmo que sem querer, por ter poderes ficcionais, se vinga de todos que fazem mal para ela.

(...)
uma cidade pequena, uma comunidade reduzida, pessoas que se conhecem desde de sempre, e a carga dos pais, avós, um histórico de maldizeres bem antes de nascer, essa é a herança do pobre, essa é a herança do marginalizado. ainda que saísse do campo para viver na cidade, e que soubessem vagamente de onde vinha, daquele momento em diante já estaria marcado por ser um forasteiro, um invasor e por ser um campesino: um chucro. posso afirmar com certeza que é mais fácil lidar com animais e cheirar bosta o dia inteiro do que estar no meio de gente falsa e perversa. mas quem poderia lutar contra a tragédia da pobreza, "os feudos contemporâneos" e contra as castas impostas pelo "capitalismo selvagem"? um poeta? Maiakovski? um profeta? Jesus?
a igrejinha plantada no meio da cidade, ficando cada ano maior com as edículas feitas lado a lado para subirem a torre um pouco mais, com seu sino que ecoava de hora em hora, e sies vezes na horado angelus, com suas imagens de santos e suas carinhas de dor e beicinho para qualquer fé, com um Deus delivery para cada uma, deixa esboçado na cara das carolas fofoqueiras que Céu é que nos espera...
hoje um terapeuta, um psiquiatra, me colocaria a pensar sobre os temas, antes eu pensava por mim, e chego a conclusão de que ninguém salva ninguém. e não tenho resposta para nenhuma pergunta.
aquela pequena cidade matou qualquer resquício que eu poderia ter de fé, e me fez duvidar de ter esperança, apenas me lembrar de como eu percebia aquelas pessoas me dá ânsia, me faz mal à gastrite, era sufocante estar ali, muitos olhos, que nem me fingindo de surda, me fingindo de muda, nem mesmo me fazendo de morta, eu teria paz ou futuro, teria atentado contra a minha vida mais cedo.
era agradável quando havia quermesse, a comida era realmente boa e distribuíam de graça.
 
(...)
eu gostava mesmo era do pão com café, e da minha cadeira carcomida pelo tempo. antes de você, desconhecia Macabea, desconhecia tanta coisa, como ela se sentiria inquirida por tantos olhos? quereria ela ser anônima, teria ela se sentido uma anomalia da natureza se tivesse em meus sapatos?
não que eu preferisse ser a "Macabea" da Clarice Lispector, lembro-me que era assim que você me chamava quando nos conhecemos, quando olhou para mim de verdade, pela primeira vez, lembro também da maneira com que servia as pessoas do café, eu me lembro de tudo. Macabea era uma moça sofrida, de pouca instrução e que tinha o seu encanto particular e simples, provinciana e com pouca cultura, presa naquela realidade torpe e tão humana que aprisiona quase todos que herdam apenas uma vida dura e de privações e minha realidade e a dela se pareciam muito naquela época, acho que tive mais sorte, penso que fui menos deslumbrada e menos pacífica e ainda bem que vivi mais, não morri atropelada no fim da história. o certo é que trabalhava demais, para ter o mínimo, era quieta, sorria muito (mas por dentro), por vezes para me consolar das minhas faltas e carências, por vezes para demonstrar a mim mesma meu valor desenvolvendo um escárnio sobre tudo que me irritava e hoje não sei dizer se fazia isso porque me achava diferente e não me adaptava ou se criava essa distância instintiva por não saber como fingir, realmente até o momento não sei ao certo o que me fez assim.
(...) 

II -  O Balconista que queria ser escritor

e eu que me julgava diferente, acima dos sentimentos humanos, não percebi que depois que o balconista do café entrou na minha vida, entendi que trago mais similaridades com aquelas moças do lado do fora do que supunha. o vidro embaçado do café não me deixou enxergar mais cedo que aquilo era quase  um espelho e que as histórias são parecidas, mas ainda bem que não são tão iguais assim.  o meu escarnio secreto e particular deu espaço para os mesmos sorrisos bobos de todas elas e a atitude rebelde deu espaço ao acanhamento característico de quem se sente inferiorizada por não ter o que a maioria tem, por não ser parecido com os que estão a volta, um estranhamento interno difícil de calar.
antes dele era fácil caminhar pelos escombros de pessoas vivas e infelizes, cristãs, cheias de fé e de maldade no coração, sem enfrentar o medo de ser atingida por elas porque eu me sentia invulnerável, depois de Francisco, tudo mudou definitivamente.
para mim é tão difícil descrever-te, seguro o lábio entre os dentes para não tremer, não quero chorar dessa vez. as palavras fogem, "assim como minha retórica forte sobre minha argumentação fraca" (risos), fortaleça os argumentos e com eles bem formatados ninguém há de querer derrubar teu discurso, seja elegante e fina, não altere a voz, ainda que o coração lhe saltar pelo peito, ainda que a animosidade lhe chamar ao insulto, seja educada, complacente, respire fundo e aparente a leveza dócil do civilizado gentil, não sobreponha palavras e espere para formular tua resposta, assim como afiaria a ponta de uma flecha" e tuas palavras trazem-te de volta, não deixam-me te esquecer... 
 o calor das mãos, sim, o calor de tuas mãos é o que me faz estar contigo cada vez que a memória volta a ti, amado. ninguém tomou teu lugar em mim, aquele menino dentro de um corpo tão forte. a força de dez homens não lhe venceriam a guerra do sorriso e olhar profundo, me levou sempre pela mão, por lugares desconhecidos para mim, eu sim, uma menina dentro de um corpo de mulher que se desconhecia por completo e que você trouxe à vida e despertou do sono da inocência primeira. tenho a sensação que se estivesse aqui, ainda confiaria em ti, e nem em um milhão de anos pensei que fosse escrever sobre ti no passado, nunca pensei que as coisas seriam como foram.
 aqui há um grande pedaço de ti, plantou-me jardins inteiros e eu continuo os cultivando para a realidade vindoura do abandono profundo e inerente a todos, não me abraça o medo da morte, talvez por conhecer tão bem a vida, por saber que a ordem natural das coisas é o desaparecimento, não me dou tanta importância a ponto de achar que tudo que sou é documental e precisa ficar para a posteridade, não sou uma desvairada, nem me deslumbro mais com as coisas, como fazia quando jovem, a vida tem seu preço, cada dia damos uma moeda e no fim ainda estamos a dever algo para alguém, viver não é justo, morrer também não, mas eu gosto de existir e dou valor nessa existência, que não teve a chance de desfrutar, por vezes me pego passando o polegar sobre a minha aliança, com o nariz preso ao indicador (risos)
 eu sempre tive medo da senilidade e da força do tempo, antes tinha medo da velhice, do abandono e da morte, mas o maior temor de todos era a insanidade ou a demência, e ainda assim, mil vezes esquecer do que perder o controle sobre meu corpo, minha mente e sobre as minhas vontades.
 a loucura, aquela loucura calculada era permitida a nós, éramos os cúmplices perfeitos e estarmos juntos acabou por ser uma quebra do que estava prometido para ambos como o "viver bem" e "aceitar o que nos é imposto pelo destino", nada está escrito da forma que tentaram nos enfiar goela abaixo e abriu-me os olhos, me fez perceber isso.
 por tuas mãos vieram-me: a poesia de Anna Akhmátova, de Baudelaire, Byron, os cantos do Conde de Lautréamont, Maiakovski, os ensaios proféticos de Tolstói, a Dostoievski, Bukowski, a verdadeira e dura farpa da realidade de Schopenhauer, entre tantos outros que mal consigo citar, me ensinou a ler de novo, os livros novos e velhos trazem teu cheiro.
o mundo sem ti é uma terra desolada e fria, T.S. Eliot nunca fez tanto sentido pra mim, mas todas as cartas estão aqui e poderia apostar que já leu todas e quando eu voltar pra si, já as saberá de cor, quanta bobagem e desperdício de tempo, diria agora, esse tal de além não existe, Deus sou eu, e tantas frases que me faziam rir, hoje existem capetas para todos os gostos nas redes sociais, coisas que nem sonhávamos em nossos tempos. lembra da canção Personal Jesus, do Depeche Mode? agora a história é o inverso, nem sei a medida, mas o demônio está até na Universal, o mundo está um caos e estou cansada demais pra lutar contra, como fazíamos antes.
 dizem os amigos mais próximos e meu irmão, que o amor que vai cedo é o que mais se privilegia do carinho real e despretensioso, porque não tem orgulho ou ego ferido, porque uma das partes não está mais ali pra responder, pra se revoltar, pra se contradizer, mentir ou minimizar dores, e eu discordo, porque  nada a meu respeito era-te imposto e ao mesmo era crível, confiávamo-nos , somente tu me doou a credibilidade que não mais encontrei em outro lugar, ou em outra pessoa.
 é celebrado ainda, nenhum aniversário, nenhum ano-novo, nenhum fogo de artifício faiscou no céu sem a lembrança de quem é.


(...)




III - Eros e Psiquê

e com a certeza de que amores verdadeiros existem, recorro a mitologia grega. qualquer um pode se dizer amado e desejado e criar uma história muito linda de amor, dentro de sua cabeça. pode inclusive vivenciá-la se de algum modo acreditar mesmo em suas próprias falácias.
quando me olhou pela primeira vez, eu não sei, quando começou a me observar, tampouco. o certo é que veio falar comigo numa tarde de domingo, calma e chuvosa. não haviam carros e eu estava envolvida com a leitura de um almanaque qualquer, naquela época não havia internet, rede móvel ou essas coisas que dragam os nossos olhos, como hoje.
colocou a xícara de café sobre a mesa e eu disse: "não pedi café" e você respondeu que era por conta da casa. só tirei os olhos da leitura por conta disso, era inédito receber café de graça ali. 
antes de olhar pra você, olhei para a xícara e ao encontrar o seu sorriso sorri também. quem pagou? perguntei interessada, e você disse, vão me cobrar no fim do mês. agora vejo que não faz sentido contar para si o que nos aconteceu, pode ser um lapso, uma vontade de trazer-te para mim, ainda que seja apenas por lembranças, deixar em palavras, mesmo que jamais sejam lidas por alguém: você é muito importante na minha vida...

"Eu visitei o poeta
para Aleksandr Blok

Eu visitei o poeta
ao meio-dia em ponto. Domingo.
Quietude no amplo quarto
e, fora das janelas, o frio
e um sol cor de amoras silvestres,
envolto em névoa hirsuta e azulada…
Com que olhar aguçado o taciturno
anfitrião olhava para mim!
Tinha olhos daquele tipo
de que a gente nunca se esquece;
melhor seria, cuidadosa,
eu não devolver seu olhar.
Mas me lembrarei sempre da conversa,
o meio dia nevoento, domingo,
naquela casa alta e cinzenta,
junto aos portões do Nevá para o mar.  -  Anna Akhmátova"

era assim que me sentia, mas na época nem conhecia esse poema, e a minha existência tem sido assim, encontro pedaços teus em minhas leituras, nas minhas divagações cotidianas, no passado tanta coisa não fazia sentido para mim, não sei dizer se era pela juventude ou pela ignorância. o café esfriou e esfria na maioria das vezes que tenho pensamentos em  nós. essa tarde foi deveras especial, chuvosa e seria vazia, não fossem as duas horas que falamos e éramos totalmente estranhos.
o livros foram chegando junto com as nossas conversas fáceis. não haviam empecilhos aparentes e eu estava totalmente à disposição para aprender e descobrir. 
me perguntava o que eu tinha de especial se é que eu tinha algo de especial, me perguntava porque eu, me perguntava o que um rapaz tão bonito e educado faria comigo, uma jeca,  me sentia uma boba, constantemente. 

IV - A estrela e a esfinge

(da casa da Avenida Estrela do Sul ainda existe, numa recordação do que poderia ter sido)
(...)


V - Maldolor

Abram Lautréamont! E aí está toda a literatura virada pelo avesso como um guarda chuva! Fechem Lautréamont e tudo volta ao seu lugar... (Francis Ponge)

muito pouca gente me conhece e sabe quem sou, debaixo dessa carapaça rija e descolorada vive alguém que vale a pena, mas há de se ter paciência, dedicação e lealdade para estar comigo de verdade. sou um animal selvagem auto destrutivo, mas que de certa forma se preserva para não morrer tão rápido. não peço ajuda e isso é um defeito enorme.
ah, meu pêndulo tão característico... querer mostrar as vísceras esperando não causar asco ou repúdio.

(...)

a passagem do tempo somada às minhas escolhas, todas vincadas pelas experiências e movimentos reativos e/ou passivos e escolhas feitas e/ou impostas construíam-se vagarosamente meu caráter, sou um amalgama de minhas vivências. mas se não tivesse conhecimento de mim, ou consciência do que acontecia à minha volta seria apenas um barco à deriva esperando por reboque.


leio as tuas cartas, só pra tocar o papel, porque sei onde estão até a pausa da tua respiração.
(...)




às vezes estar com outras pessoas soa ofensivo, eu criei uma carapaça em volta do meu coração. não porque sou uma alma inquebrável e bravia, muto pelo contrário, quanto mais o tempo passa, mais me sinto impotente e entregue a esse mundo estranho e de pessoas ocas.
(...)





VI - O sapo na ribanceira

(...)
embriagada pelo desespero e o torpor de uma garrafa de vinho barato me dei conta do quanto essas coisas banais e frívolas da vida fizeram-me falta. não sabia, fui uma engessada moral por muito tempo, e as vozes da minha mãe ainda ecoam em minha cabeça, mesmo estando morta há tanto tempo. acredito que ela sabia quem eu era, antes eu entendesse ou soubesse de qualquer coisa de mim, ou pior, dissimulava muito bem e conduzia-me à sua revelia para onde queria, me impedindo de ter a liberdade de escolha, tão característica de todo ser humano e por imposição ou por ignorância  me deixei guiar por ela. fui uma boneca, um fantoche vazio por muito tempo, julgava que ela sabia o que era melhor para mim, que por ter experiência me protegeria do mundo.

(...)
ao perceber que seria impossível conjugar meus desejos com as imposições maternas, saí de casa, com duas ou três mudas de roupas, sem ser vista, como uma fugitiva, saí madrugada a dentro, não olhei para trás e jamais voltei.
(...)
 eu cheirava a sabão de coco, era o mais próximo da limpeza que eu poderia pagar. o sabão de soda também era feito por mim, para economizar, naquele tempo as coisas custavam mais e a minha dificuldade em pagá-las também era enorme
(...)
me pergunto se ter problemas em confiar nas pessoas nasceu de fato do entendimento universal, quase absoluto, de que a pessoa em que eu deveria/poderia confiar cegamente, partindo do pressuposto de que ninguém te ama mais que tua mãe e esse elo ter sido quebrado, eu concluí que essa enorme dificuldade em confiar em quem quer que seja tem sua raiz fincada aí: na relação de ódio que tenho com a minha mãe.

(...)
os marcadores de livro e as notas que tomo antes de terminar qualquer leitura importante, uma ou outra estrofe mais forte, uma ou outra palavra bonita, todas esssas pequenas coisas me levam para teus braços, para teu cheiro, para meu próprio toque para lembrar-te, comemorar-te. é exatamente onde você vive e lateja ainda, nas notas de rodapé, explicando, referenciando, dando as guias e os caminhos para novas leituras e novos entendimento, me dando oportunidade de ler e reler e reviver tuas memórias em favor desse desespero que tua falta me traz. as notas de rodapé dos livros de cabeceira cochicham com a tua voz e eu sorrio.
(...)







(esse mesmo que carregou todas as memórias recentes da minha mãe, a doença de Alzheimer levou dela o ímpeto e devolveu apenas a impotência, )