quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Al

 por muito tempo minha rotina era um quarto, uma cama e um estágio louco por escrever e colocar os pensamentos para fora, um exorcismo, ou uma tentativa para que eles não desaparecessem como névoa, e essas histórias que nunca contei ficaram adormecidas pela vergonha e pudor de colocar em palavras, o asco que eu tinha de tudo que repeli: a vida. difamei a todos que invadiram minhas fronteiras para me mostrar que assim eram as coisas, que assim era isso que chamam existência. alegria que não me tocava, eu fingia, fingia na maioria das vezes, ninguém nunca me pegou desprevenida, ninguém me encontrou dentro da última camada da boneca russa. fingir alegria, cuidado, empatia é muito fácil, demonstrar interesse repentino por estranhos, por pessoas distantes, por desconhecidos "íntimos" era quase um hobby, fingir amor e proximidade também. falar sobre assuntos aleatórios, trocar impressões sobre livros, sobre momentos históricos, casos de família, fofocas e chismes não era obstáculo, mas eu preferia ficar sozinha. preferia rir dos outros na minha solidão acalantadora, me protegia do mundo e me fazia mais forte. não tive e não tenho interesse no outro, não sou curiosa sobre a vida alheia e muito pouco fora de minha esfera íntima e pessoal me interessa. quando criança hora ou outra eu me dava o desfrute de comungar com as pessoas mais distantes ou quando chegavam os tios e primos que viviam fora daquele lugar horrível, eu tentava ou treinava uma certa interação, mas era mais um exercício intelectual, uma absorção de biomas mais distantes e supostamente alcançáveis. e hoje percebo, com uma certa dificuldade em admitir, que não era tão ruim assim. eu queria morar perto do mar, queria ouvir algo que não fossem sapos coaxando e meus pais gozando no quarto ao lado, era deprimente. 
não me lembro de ter deixado esse estado torpe de distanciamento, como se até eu (por vezes) fosse terceira pessoa de mim, tentando entender como as pessoas a minha volta se encaixavam, de maneira harmoniosa ou não e aquele silêncio que quase acusava os que estavam permanentemente calados. o fluxo funciona e nada faz sentido, pelo menos para mim não faz, parecem um amontoado de conveniências, os atos são antecipados pelo pensamento comum: "o que vão pensar sobre isso? como será o julgamento dos meus perante esse meu apontamento, ou diante de meus atos?" particularmente, não me importo com o que pensam de mim, isso não molda meu comportamento ou meu caráter, e me afasta da conveniência social.
 tenho a impressão que nada muda as pessoas em seu âmago, digo de novo e reforço: nada muda profundamente a natureza primal do indivíduo, nada ensina, nada. nem mesmo sob a pregação diária, a lavagem cerebral, por mais que afirmem isso, eu não consigo acreditar. como medir isso também me parece uma incógnita, saber se hoje alguém é melhor ou pior do que há um tempo atrás, como comparar sua existência agora com a de anos idos, em outra perspectiva, em outro enquadramento, ou tendo em vista outros focos e outras referências e potências fraquezas?
nasci e permaneço um animal ruminante, quase pacífico, não mordo com força, só o suficiente para não me montarem quando não quero, para desistirem me adestrar quando estou indisposta e/ou para afastar os inconvenientes. deveria ter uns dez estômagos, só tenho um e lento. demoro processar tudo o que não consigo engolir, então está aí a explicação do ciclo de mastigar, regurgitar e ruminar constante. esse ruminar existencial, vácuo de atitude e de reação que respondo dizendo "não é nada" que resolvi por conveniência chamar de "vazio" impera. não que seja realmente vazio, não que seja realmente nada, mas enquanto falta-me o termo certo para definir é assim que irei me referir, para não voltar à explicação enfadonha e particular do buraco negro - "ruminar".
me sinto protegida dos outros quando estou atrás de uma máquina de escrever, atrás duma folha em branco que me confronta, estar ali mergulhada no meu silêncio ensurdecedor, duvidando de mim mesma, dizendo-me em meio a tortura dilacerante (que inflijo a mim mesma) que eu sou uma impostora, não sou escritora e que nada em mim é verdadeiro e relevante.
ardo em dor e febre e duvido de minha dor, duvido de meus sentidos, e acho que estou fingindo sem pudor, e sou desacreditada por mim (mesma), antes que os outros o façam.
todos os dias busco respostas em mim, meu tribunal interno me inquire e me cobra todos os dias, antes de dormir. as minhas própria ausência dos outros, apaziguam as minhas necessidades, não faço tanta falta assim, embora me cobrem presença. não me lembro de ter sido livre ou totalmente verdadeira com ninguém, há sempre essa reação adversa sob a pressão de que eu responda bem a tudo que me enfiam goela abaixo e cu acima, me protejo com esse manto, com esse ato dissimulado de dizer o que querem ouvir e ser quem quer que eles queiram que eu seja. um camaleão que se encobre na invisibilidade ou na farsa do inexistir, para não ser atacado ou devorado por espécies maiores e mais poderosas.




(...)




(o desejo)

o desejo me moveu por todas as arestas da minha vida, pelos poros, pelos olhos, por tudo de belo e excitante que vivia fora. eu nunca fui bonita, essa beleza em que se inspiram os poetas, os pintores, os artistas, eu era desejável, mas não bonita. sabe a amiga feia que alguém leva para a festa para acompanhar, aquela que é calada e distante o bastante para que deem um close-up e ela esteja invisível atrás da protagonista? essa era eu. não é um reclamo, não é um vitimismo, é só a fotografia mesmo. nos bailes da minha juventude não era a primeira a ter par e nem a última e também não esperava, e eu descrevo isso porque explica bem meu estágio: eu não me importava, e ainda não me importo. sou negligente com os meus, amo e desejo, mas depois de ter volto à letargia do desimportante. e aí entra a escritora (em terceira pessoa) que usa tudo como subterfúgio, como fuga, para ensimesmar-se. e eu envolvida no meu egóico casulo, em minha própria desimportância vazia e contemplativa: olho, observo, aquieto-me na quase inexistência vazia de uma vida sem rompantes. eu vejo e olhar não me custa nada, olho para dentro, para fora , para além e não com soberba, mas com um pacifismo que me parece que nem a morte seria dolorosa, porque enquanto processo, eu continuaria espectadora. quando desejo, tudo mais perde o sentido, é uma sanha da caça, do possuir, do tomar. um querer descontrolado, uma ânsia avassaladora de ter, uma conquista/aniquilar. não sei se já amei, friamente olharia como uma fúria que nasce do querer exacerbado e raro, quero tão pouco, com mínima frequência, limitadíssima potencia, que não sei explicar, todos coelhos: frágeis. uns se gabavam de belezas estonteantes, outros de quantidade de mulheres/homens, outros da maneira que traziam consigo o orgulho de não se desvencilharem deles. todos frágeis a sua maneira, e aqui posso assinalar a minha vulnerabilidade, eu não sou acessível do mesmo modo e isso é uma comorbidade. é quase impossível explicar de mim já que procuro em vão encontrar a correta descrição do que sinto e do que escrevo, mas mesmo sabendo da dificuldade de encontrar termos, eu tento com rigor. antes de começar não sei onde vou, sei que vou escrever mas não sei para onde vai a escrita, por onde as personagens me levaram ou me desvelaram, o certo é que elas me destroem, me matam aos poucos em suas angústias, tudo é angustiado, as pessoas berram por ajuda, e eu assisto, como se eu mesma não precisasse de tal ajuda. quando nascem não são elaboradas, não são complexas, não me trazem muita coisa e a medida que  são confrontadas com a falta de planos, quando me deparo com a folha de papel em branco, a guerra se faz. é muito intenso, é muito dolorido, é irônico e satírico e quase tão meu que quase acredito que sou eu. mas estou vazia, lembra? a mas, depois de escrever não tenho consciência do que foi, do porque chegamos ali, eu e a personagem: escrever é deixar vir um desconhecido de nós mesmos. o desejo é o oposto disso. depois que o fervor do desejo é apaziguado, depois de arder, queimar e não sobrar nada mais que cinzas, depois de não tem mais combustível ou comburente tenho a sensação que tudo acaba. é necessário o luto para que todas as vozes se calem, para que o mundo decante tudo que se elevou com o turbilhão e a queima, para enfim recomeçar. e assim são minhas vivências amorosas também. tudo começa da pedra e termina na pedra, como haveria de ser diferente?



(melancolia)

´pois não encontrei um substantivo melhor', o elo que nos faz iguais, se é que algo nos faz iguais. todos que me julgam distante têm razão, e assim como eu há uma razão para ser ou para responder (reagir) a  algo. em algum momento em minha existência o objetivo, a meta primordial era/é encontrar a palavra certa, e  por vezes isso se torna ou é mais importante que viver. e ali parada, sentada na areia da praia, num dia frio, onde ninguém perturba a solidão, onde o grito da gaivota parece ressoar, conversando com a água do mar, exatamente ali, naquela quietude matinal encontrei uma alegoria perfeita. só eu suporto meus silêncios, no desconforto estou sozinha, não há quem tenha meu íntimo e profundo. 



(a gêmea)

Virgínia está morta, Clarice está morta, Silvia está morta e os papéis estavam espalhados por uma penteadeira enfeitada com uma rosa seca, em um vaso de porcelana, tudo mais estava impecavelmente arrumado. o silêncio era profundo e calmo, as bonequinhas de porcelana me encaravam sem parar e o espelho também. outra vez, e outra e mais uma, quantas delas virão a mim e me rasgarão? ela está morta, a venta entreaberta, a boca fechada, as mãos fechadas, como quem tentou se agarrar pra não sair, como pode um ser insensível como eu, chorar? os braços estavam abertos, e poderia ser só uma visão. a desesperança e a tristeza caíram lhe sobre a testa alongada. senti as mãos, pequenos dedos, pequenos e mal formados, ouço sua voz fininha e baixa, queria gritar, ela está morta, ela está morta e talvez isso preenchesse minha alma vazia, talvez eu tivesse uma esperança, aquela voz fina e silenciosa que só ecoava na minha cabeça tentava me consolar, mas não tinha remédio. o certo é que eu tinha a outra, a que ficou em meu ventre e lutou mais um pouco. pra que? me pergunto, pra que ela lutou? para ser quem é hoje, para me odiar impunimente? para me confrontar com minhas fraquezas e com a minha mesquinhez? pra me mostrar o quanto sou insuficiente e descartável?
era meu sangue que a cobria, era meu ventre que ela rasgara, minhas vísceras eram ela. 


(a outra filha)


essa não me queria, não me amava como a gêmea, essa me desdenha por completo e esquece que a concebi e a trouxe entre minhas entranhas por 27 semanas, desconhece o quanto me prejudicou, desconhece o quanto me maltratou desde o princípio e tudo que. involuntariamente, me fez perder. não a culpo e escrevo para deixar claro que eu não esqueci, embora a tenha perdoado de mim.




 (o ciclo)

a volta da melancolia, talvez o pensamento de que as coisas voltaram ao estágio inicial, mas não da maneira que algo nasce, cresce e morre e cumpre seu papel. há uma força invisível e inquisitória que me censura os papéis da vida quando não estou escrevendo, quando não estou em luta severa com a folha em branco, quando não quero abrir os olhos, quando não quero exercer nenhum personagem cotidiano, a filha, a mãe, a esposa, a escritora em estágio de criação. se não estou escrava/devota à escrita a escrita me acusa, nada me afeta mais que isso, absolutamente nada. queria mesmo saber se é fúria ou se é mais um personagem, esse que se esconde em várias facetas e comanda os bonecos da marginalidade e se autocompleta, sem se justificar se orienta até o ponto que nada me fere, nada me intimida, nada me derruba, com exceção da escrita (do ato de estar escrevendo). nada faz sentido, as coisas se perdem por eu não ter consciência de nada, eu só me entendo por completo quando estou exercendo meu ofício, o mundo não faz sentido sem a linguagem escrita, sem a semiótica escrita, sem a coerência soletrada e editada em  palavras. a vida não tem sentido sem a escrita. algo invisível e indivisível de mim paira sob minha consciência mais obscura e mais desconhecida e como sempre fugi de mim, tentei escapar dessa coisa que paira, entra e sai de mim, para satisfazer a mim, ou essa parte de mim que anseia pelas histórias que conto. é um exercício estranho e incontrolável, e na maioria das vezes só se manifesta em ambientes controlados e muito confortáveis e com ares de lar, de pertencimento dentro desse mesmo sentimento, é difícil explicar. no desejo não consigo apaziguar todas as dores contidas dentro desse medo que me aprisiona, mas ao mesmo tempo me acolhe e me suga as forças até eu não querer sair mais dele. não tenho uma vida atribulada e estou bem, conforme as doenças de meu coração ainda me deixam um tanto debilitada, não sou plena, a plenitude deixou de existir quando amei pela primeira vez, não sei bem se é isso, pode não ser. o amor não é a causa, até porque vejo o amor como a predação, a caça, o troféu. uma conquista, um amante, um retrato na parede, o desejo que avassala, queima até virar pó, e nunca foi diferente disso, quem sabe isso mude. o amor também é essa pérola que nasceu de uma dor, uma fila morta, uma filha viva, uma filha que me libertou de ser mãe e a outra que me aprisiona nesse papel mesmo me rejeitando. uma vida vazia nunca estou presente, mesmo aqui é um estado de torpor e ausência


(,,,)

o vazio não se explica em palavras, conversar sozinha não conforta, a escrivaninha caótica chamava diariamente para o velho confronto: a folha vazia e o caminho inóspito que nunca saberia atravessar sem minhas máscaras e o destino que nunca era esperado antes de estar lá. não sei onde vou, não sei onde as palavras por elas me levam, pela mão, ás vezes, pelos pés e arrastada às vezes. sou aquela mulher arrastada pela via pública, em pleno século vinte um e não saio viva do arrasto. uns dizem que eu me protejo em minhas personagens e dentro de minhas próprias histórias, em meus contos e poemas, na ficção, outros dizem que sou uma feminista hipócrita, outros que sou uma machista disfarçada. fui acusada muitas vezes de fugir da realidade, de usar minhas personagens para responder ou me justificar, de usar minha escrita para criar uma distância enorme entre mim e as outras pessoas, no geral todas as pessoas mais próximas de minha convivência, incluindo meu maior tesouro: minha filha. já tentei descrever esse vazio da página em branco milhões de vezes e no fim a luta é ganha pelo lado de lá, nunca por mim. quantos escritores hão de ter essa mesma teima, essa mesma sina, essa idêntica tragédia? o que importa é escrever, aliás nem escrever, e colocar em palavras não é uma explicação, porque já sou velha e não preciso me justificar de nada que faço. são exceções em mim: o desejo e minha filha.

Nenhum comentário:

Postar um comentário