(...)
(o desejo)
o desejo me moveu por todas as arestas da minha vida, pelos poros, pelos olhos, por tudo de belo e excitante que vivia fora. eu nunca fui bonita, essa beleza em que se inspiram os poetas, os pintores, os artistas, eu era desejável, mas não bonita. sabe a amiga feia que alguém leva para a festa para acompanhar, aquela que é calada e distante o bastante para que deem um close-up e ela esteja invisível atrás da protagonista? essa era eu. não é um reclamo, não é um vitimismo, é só a fotografia mesmo. nos bailes da minha juventude não era a primeira a ter par e nem a última e também não esperava, e eu descrevo isso porque explica bem meu estágio: eu não me importava, e ainda não me importo. sou negligente com os meus, amo e desejo, mas depois de ter volto à letargia do desimportante. e aí entra a escritora (em terceira pessoa) que usa tudo como subterfúgio, como fuga, para ensimesmar-se. e eu envolvida no meu egóico casulo, em minha própria desimportância vazia e contemplativa: olho, observo, aquieto-me na quase inexistência vazia de uma vida sem rompantes. eu vejo e olhar não me custa nada, olho para dentro, para fora , para além e não com soberba, mas com um pacifismo que me parece que nem a morte seria dolorosa, porque enquanto processo, eu continuaria espectadora. quando desejo, tudo mais perde o sentido, é uma sanha da caça, do possuir, do tomar. um querer descontrolado, uma ânsia avassaladora de ter, uma conquista/aniquilar. não sei se já amei, friamente olharia como uma fúria que nasce do querer exacerbado e raro, quero tão pouco, com mínima frequência, limitadíssima potencia, que não sei explicar, todos coelhos: frágeis. uns se gabavam de belezas estonteantes, outros de quantidade de mulheres/homens, outros da maneira que traziam consigo o orgulho de não se desvencilharem deles. todos frágeis a sua maneira, e aqui posso assinalar a minha vulnerabilidade, eu não sou acessível do mesmo modo e isso é uma comorbidade. é quase impossível explicar de mim já que procuro em vão encontrar a correta descrição do que sinto e do que escrevo, mas mesmo sabendo da dificuldade de encontrar termos, eu tento com rigor. antes de começar não sei onde vou, sei que vou escrever mas não sei para onde vai a escrita, por onde as personagens me levaram ou me desvelaram, o certo é que elas me destroem, me matam aos poucos em suas angústias, tudo é angustiado, as pessoas berram por ajuda, e eu assisto, como se eu mesma não precisasse de tal ajuda. quando nascem não são elaboradas, não são complexas, não me trazem muita coisa e a medida que são confrontadas com a falta de planos, quando me deparo com a folha de papel em branco, a guerra se faz. é muito intenso, é muito dolorido, é irônico e satírico e quase tão meu que quase acredito que sou eu. mas estou vazia, lembra? a mas, depois de escrever não tenho consciência do que foi, do porque chegamos ali, eu e a personagem: escrever é deixar vir um desconhecido de nós mesmos. o desejo é o oposto disso. depois que o fervor do desejo é apaziguado, depois de arder, queimar e não sobrar nada mais que cinzas, depois de não tem mais combustível ou comburente tenho a sensação que tudo acaba. é necessário o luto para que todas as vozes se calem, para que o mundo decante tudo que se elevou com o turbilhão e a queima, para enfim recomeçar. e assim são minhas vivências amorosas também. tudo começa da pedra e termina na pedra, como haveria de ser diferente?
(melancolia)
´pois não encontrei um substantivo melhor', o elo que nos faz iguais, se é que algo nos faz iguais. todos que me julgam distante têm razão, e assim como eu há uma razão para ser ou para responder (reagir) a algo. em algum momento em minha existência o objetivo, a meta primordial era/é encontrar a palavra certa, e por vezes isso se torna ou é mais importante que viver. e ali parada, sentada na areia da praia, num dia frio, onde ninguém perturba a solidão, onde o grito da gaivota parece ressoar, conversando com a água do mar, exatamente ali, naquela quietude matinal encontrei uma alegoria perfeita. só eu suporto meus silêncios, no desconforto estou sozinha, não há quem tenha meu íntimo e profundo.
(a gêmea)
(a outra filha)
essa não me queria, não me amava como a gêmea, essa me desdenha por completo e esquece que a concebi e a trouxe entre minhas entranhas por 27 semanas, desconhece o quanto me prejudicou, desconhece o quanto me maltratou desde o princípio e tudo que. involuntariamente, me fez perder. não a culpo e escrevo para deixar claro que eu não esqueci, embora a tenha perdoado de mim.
(,,,)
o vazio não se explica em palavras, conversar sozinha não conforta, a escrivaninha caótica chamava diariamente para o velho confronto: a folha vazia e o caminho inóspito que nunca saberia atravessar sem minhas máscaras e o destino que nunca era esperado antes de estar lá. não sei onde vou, não sei onde as palavras por elas me levam, pela mão, ás vezes, pelos pés e arrastada às vezes. sou aquela mulher arrastada pela via pública, em pleno século vinte um e não saio viva do arrasto. uns dizem que eu me protejo em minhas personagens e dentro de minhas próprias histórias, em meus contos e poemas, na ficção, outros dizem que sou uma feminista hipócrita, outros que sou uma machista disfarçada. fui acusada muitas vezes de fugir da realidade, de usar minhas personagens para responder ou me justificar, de usar minha escrita para criar uma distância enorme entre mim e as outras pessoas, no geral todas as pessoas mais próximas de minha convivência, incluindo meu maior tesouro: minha filha. já tentei descrever esse vazio da página em branco milhões de vezes e no fim a luta é ganha pelo lado de lá, nunca por mim. quantos escritores hão de ter essa mesma teima, essa mesma sina, essa idêntica tragédia? o que importa é escrever, aliás nem escrever, e colocar em palavras não é uma explicação, porque já sou velha e não preciso me justificar de nada que faço. são exceções em mim: o desejo e minha filha.
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