nunca me pergunte o que eu penso, pois sou aquela esfinge torta que mente e te joga sob os labirintos de suas próprias falhas, e te sapateia depois da derrota. não sou confiável. o sofrimento do outro não me regozija, não me traz satisfação alguma, mas devo dizer que enquanto as pessoas sofrem, elas esquecem de você e sua existência perde a importância e o interesse esvanece, enquanto estão preocupados com suas dores e com o que as pessoas irão fazer tendo em vista que estão fragilizados se ocupam apenas com o que é de sua alçada, assim seu tempo de me azucrinar é escasso, amém.
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não se sinta aliviado após matar um animal venenoso, o que te mata permanece latente, enquanto as coisas são latentes e circulam entre o sim e o não, até uma cobra abatida pica instintivamente. o impensável pode acontecer, animais peçonhentos te ferem até depois de mortos. não se deixe enganar pelas falsas ideias de fragilidade, decadência e morte. as mães sobrevivem à morte, elas ecoam em você pra sempre, e quando falecem a sua voz da consciência (quase_ se transforma na voz acusatória de sua mãe.
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não reclamo mais dela, não choro mais, não sinto asco, tudo amorteceu com o tempo e com a distância. e eu sobrevivi. o expurgo é só a promessa do fechamento de mais um processo interno de linguagem, do que qualquer outra coisa,
todo mundo nasce para criativo. eu por não saber de quase nada, nem ter sido ensinada muito cedo, achei que não haviam diferenças tão grandes entre eu e meu irmão mais novo. pobrezinha de mim... ele, dois anos mais novo, nasceu porque eu não pude satisfazer as necessidades básicas de minha mãe, ela só queria um filho e eu não entendia naquele momento é que eu não era um filho, era uma filhA. portanto, já nasci falhada, não era menino, e só por não ter morrido no parto já não satisfazia bem a segunda necessidade, que era ter apenas um filhO. nasci e sobrevivi, só isso já bastou para ser odiada para toda a minha inútil existência. menina não anda sem camisa, não se senta de perna aberta, não grita, não corre, não chama a atenção de ninguém, menina vive na surdina, pedindo desculpa por tudo e por nada, menina deveria nascer morta. mas se vive apanha para não ser torta, é torturada para não gostar de viver, é sabotada e humilhada para não ousar ter prazer e com sorte se mata sozinha, antes de fazer quinze anos. tive meus escritos invadidos quando era jovem, e não escrevia para ninguém ler, escrevia para exorcizar meus demônios internos, minhas chagas, meus pequenos delitos. e assim, me delatava e me sabotava, sem saber. não há espaços secretos fora de sua mente ou livres de seu coração. meus olhos também tinham um estranho poder de me entregar, eu chorava e choro. a sepultura de meus pensamentos não enterram nada, são lápides de vidro expostas sobre a obsidiana de meu olhar cansado.
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guardo todos os meus mortos nas minhas lembranças, ali ele não estão enterrados e voam como aves ou anjos/demônios libertos
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não tive filhos machos, a sensação que tenho é que quando eles vinham o corpo se encarregava de abortá-los e de certa forma, isso me consolava. amar o homem é fácil quando você é submissa e está pronta para servir de lata de lixo para todas as merdas deles, e seu gozo? ahhh, o seu gozo está para eles como ouro, e querem que você engula tudo, até a última gota, bastardos mimados e controladores: não sou mãe de menino e não estou aqui para ser sua mãe e satisfazer suas necessidades.
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