quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Jim

 Jim, meu querido,

a ironia dos atos a seguir habitam numa promessa que havia feito a mim, em silencio. prometi que por mais que fosse uma vida difícil eu jamais me entregaria à prólogos, mas com a maturidade entendi que a vida é um prólogo da morte, e que postulamos tudo aquilo que vivemos como um prologar da existência. nesses atos não adianta lutar contra a vida, nem tampouco tentar ser invisível, não funciona. ou melhor dizendo, se for possível eu não consegui. sobre os epílogos, talvez por você não ter tido tempo para experimentar, vivenciar, regogizar-se e sorver a essência dos teus, e ser grato por tudo que o estar proporciona, eu prometi reverenciar e degustar os meus por dois. já que sua presença em mim é a única constante em minha "louca vida, vida breve", como bem cantou Cazuza... sem querer, as palavras que se seguem podem ou devem, não sei ainda, se tornarem meu epílogo, assim ofereço estas palavras a ti, com um au revoir, mon amour, mon ami...


 ato I - dos dias que destroem as noites

enquanto os senhores se vestem
ele se despe para mim
tão limpo e puro
que diria um inocente

[aqui ninguém é inocente]

sob os olhos de quem 
também se despiu
com o sol a pino
para que lhe vissem 
as imperfeições

[aqui ninguém é perfeito]

os dias raiando sem pressa
as horas passando sem medo
nem a rotina fria incomoda mais
a leveza das horas traz refúgio
à duas almas cansadas

[e aqui, ninguém se cansa]

paraísos artificiais


esse ventilador que observa o quarto, em quase cento e oitenta graus, desconhece o clima dos trópicos,  desconhece a temperatura e a anatomia dos corpos nus sobre o colchão. depois do gozo não importam as cotovias, a aurora se arrebentando, as nuvens, o vento, e muito menos as flores no campo. as carnes tremem, há um contentamento em si, que não ultrapassa a barreira das peles, em sentido. só se sente o outro enquanto há algo de si guardado para ele. mas os dias passam lentos e a inquieta rotina leva os amores para longe, na vertigem da ilusão, mais por mais, menos não é nada, e os pódios são aceitos, não como farsa, mas como pequenas vitórias.

ato II - das noites que dividem os dias


a derrocada em busca de novos tempos
novas eras, as revoluções, meu amor...
todos eles se perderam no tempo em que a gente se perdeu
na doçura fluida e reconfortante de nossos gozos
a libertação da carne nas pequenas mortes
na essência de ser separado de si mesmo
na lama e no deserto alheio

são línguas, bocas, falos e conas
a se deliciar mutuamente na febre
frenética e insaciável
ou até o próximo jato de porra
os sons, o calor, o delírio
tudo para isso agora
sem demora
nós

as máquinas pararam no limiar do segundo
todas as janelas e portas se fecharam
nada se movimenta
se não nós
um dentro do outro
um no centro do outro
o vórtice da criação
e destruição do universo
da vida

amanhã poderão vir outros corpos
amanhã poderemos ser apenas lembranças
memórias perdidas 
sob a sombra do esquecimento
mas, enquanto não, ainda
há o furor do desejo
que por vezes batizamos amor
e somos

quem terá coragem de dizer que não é amor? e revirar os olhos em delírio enquanto tudo mais estraga e desvanece? quem são os animais que não se entregam ao desejo, quando não há motivos para se defender?
enquanto a gosma impura da saliva de quem cospe ódio e ira, anseia em trabalho duro e esforçado ao fim do próximo, o que falta a esse que não tem satisfação na gana de possuir ou ser possuído pelo que não se pode controlar?
senhores, eu vi os olhos da morte e ela me encarou sorrindo, e ressoava aquele sussurro eu vim te buscar", eu não fui com ela, eu ainda não quero ir com ela. há de se escolher ficar envolto e mergulhado nessa escuridão acolhedora, disforme, prazerosa e profunda. escolher os prólogos e adiar o fim, na maioria das vezes não nos dão tempo para epílogos. e enquanto a grande certeza deve ser paralisada, jamais esquecida.




ato III - tente correr


há uma linha percorrida
e tanto por percorrer
para chegar onde?
para alcançar o que?

é ainda os olhos
de quem está por nascer
carrega ainda a dor
de quem está prestes
a morrer

e esse percurso íngreme
de estrada difícil
farto de escassez
a fome mata
o desamor mata

enquanto o desejo enterra
enquanto a esperança ludibria
enquanto a morte ri
e espera

então com medo
você corre
a imagem daquele filme
com o conselho:
"corra, Forest, corra"

e sem ponderar
sem processar
sem sentido 
"você corre
e morre na BR 3" 

as estradas levam aos espaços mais desejados, aos recôncavos mais obscuros e às vezes em lugares que assustam, ferem e matam. começa-se pelo bem que as coisas proporcionam, fugas talvez e no fim entende-se que qualquer coisa em excesso pode ser perigosa. o que persegue é a vertigem da primeira sensação, a corrida para tentar escapar de um caminhão carregado avançando em sua direção, e as luzes invadem os olhos, antes de ser esmagado pela força das coisas mais pesadas e menos libertas que você. quando suas merdas te dragam como areia movediça, lama, lodo, tudo te puxa para baixo, para o sujo, para o feio, e os muros parecem menos duros quando você se joga sobre eles, contra eles, através deles, assim é.


ato IV - tente se esconder

uma trágica lembrança 
de que somos humanos
e como tal vulneráveis
há dias bons e dias ruins
e num desses dias ruins 
pode ser considerado louco

a máscara da loucura
irá te disfarçar e até te esconder
mas não pelo tempo suficiente
para a tua completa recuperação
os olhos moles e o choro à vista
não te fazem fraco
não te fazem menor

a máscara da inferioridade
irá te diminuir e até te esconder
mas não pela altura suficiente
para que a tua real figura 
se mostre do tamanho que é
ter vergonha de si e se sentir medo
não te fazem menos
não te fazem nulo

a máscara da inexistência
irá te paralisar e até te cobrir
mas não pela totalidade suficiente
para que o teu existir
se esvaneça entre os teus
abandonar-se e desistir
não te fará outro
não te apagará

o fio que produzimos com o que somos e do que nos cercamos, nem sempre é seda. algumas lagartas fazem seus casulos com folhas, restos de galhos secos, o que somos em essência e o que nos rodeia, na maioria das vezes é matéria prima para nossos casulos. a minha cura veio da sua falta, eu murchei, me reduzi, me invisibilizei, sofri e me fechei. descobri minha voz, meu amor próprio e tudo que doía aqui. me voltei para dentro. e teci a mais linda renda que pude, a agulha que poderia me ferir foi a ferramenta que me ajudou em meu processo, me dei colo, me amei como nunca e me protegi do mundo, por muito tempo. talvez, por tempo demais.

ato V - a travessia para o outro lado

a metamorfose das estruturas
também não garante
que o primal é mortal
já não importa o resto

o signo ainda que não
permaneça estático
e irredutível não
perece

o verme, a larva
habita dentro do casulo
trabalha dormente
sob uma pele arrebentada

o primeiro inseto
ainda que 
profundamente transmutado
habita o segundo


há uma necessidade do tudo ao mesmo tempo, agora e já, pois as coisas se perdem, as coisas apodrecem e a matéria fresca que preenche a vida derrete, deteriora e desintegra, assim somos nós, assim é a vida. o que fica é a poesia, é o ritmo que demos e damos ao que nos rodeia, é a maneira que respondemos aos nossos dilemas mais profundos. as escolhas que fazemos permanecem para além de nós mesmos, para além da existência, para além do palpável e visível. o seu polegar passeava sobre minga mão fechada quando estávamos em silêncio, quando o contentamento era transbordo, e inundados de presença e confiança tudo era palpável e digno de toque, até o ar parecia trazer aquele caminho entre sombra e luz, tocando o porvir. depois que as asas tomam forma e se eriçam para o voo, não há nada que faça a borboleta ser lagarta, não há nada que satisfaça mais que o voo. quem se contentaria apenas com as folhas, se pode ter as flores e o vento?


ato VI - seguimos nossos prazeres (instintos)


permanecem vivos aqueles tolos
os que buscam as flores
ah, amorosos bobos
que se vingam em si
para não machucar o mundo
ser o bobo que não segura
o que não é teu

o ser que deixa bailar o vento
que muda constantemente
e rasga as próprias entranhas
para relembrar a dor das asas
cortando de dentro para fora

o ser tolo que nunca esquece da feiura
que trazia em si em larva
da escuridão e frieza solitária
da construção do casulo
do gozo do voo

o tolo que rasga as amarras e que
se deixa levar pelo vento
em busca a liberdade
e as flores e não esquece
de nada

e eu sou um tolo


Clarice tem um texto sobre o bobo, nada que eu escrever soará como ela e ninguém pode escrever como ela, mas sim, me sinto como naquele escrito, que se sentir bobo não é tão ruim. devo confessar que essas minhas escolhas de liberdade, abrindo espaço para que as pessoas à minha volta sintam abandono, por vezes me atormentam, mas a resposta perfeita já me foi dada por você, há muito tempo atrás. recuso-me a abandonar-me, que os outros façam é até humano que eu aceite, é até bem útil (às vezes) que eu aceite, mas jamais me abandonarei, apenas por breves pausas, apenas por dar-me espaço para sentir profunda e puramente o que existir me entrega. ser comum, ser invisível me acalanta, mas aos meus olhos eu brilho intensa e não esqueço das promessas que fiz a você, eu não esqueço.


ato VII - enterramos nossos tesouros ali


as músicas que embalaram nossas revoluções
já não tocam mais
estão fadadas ao esquecimento
quando eu partir também
não sei quem és
e me perdi nesse mundo
cheio de ilusões
enquanto você
não teve tempo 
para epílogos
as areias do deserto 
dentro de ampulhetas
só nos lembram do tempo
que nos draga anos
e força

te percebo mais vivo que quando estávamos juntos, e o entardecer, o céu pintado de cores avassaladoras trazem teu nome e cheiro a mim. essa terra não pode ser odiada, pois é nela que descansas, e onde estão depositadas todas as nossas lembranças.





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https://pt.wikipedia.org/wiki/Break_on_Through_(To_the_Other_Side)



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