por muito tempo minha rotina era um quarto, uma cama e um estágio louco por escrever e colocar os pensamentos para fora, um exorcismo, ou uma tentativa para que eles não desaparecessem como névoa, e essas histórias que nunca contei ficaram adormecidas pela vergonha e pudor de colocar em palavras, o asco que eu tinha de tudo que repeli a vida. difamei a todos que invadiram minhas fronteiras para me mostrar que assim eram as coisas, que assim era isso que chamam existência. alegria que eu fingia, hora ou outra quando chegavam os tios e primos que viviam fora daquele lugar horrível onde vivi minha infância. e hoje percebo, com uma dificuldade enorme em admitir, que não era tão ruim assim. eu queria morar perto do mar, queria ouvir algo que não fossem sapos coaxando e meus pais gozando no quarto ao lado, era deprimente.
não me lembro de ter deixado esse estado torpe de distanciamento, como se eu fosse terceira pessoa de mim, tentando entender como as pessoas a minha volta se encaixavam, de maneira harmoniosa ou não e aquele silêncio que quase acusava os que estavam permanentemente calados. o fluxo funciona e nada faz sentido, pelo menos para mim não faz, parecem um amontoado de conveniências, os atos são antecipados pelo pensamento comum: "o que vão pensar sobre isso? como será o julgamento dos meus perante esse meu apontamento, ou diante de meus atos?" particularmente, não me importo com o que pensam de mim, isso não molda meu comportamento e me afasta da convivência social.
tenho a impressão que nada muda as pessoas em se âmago, digo de novo e reforço: nada muda profundamente a natureza primal do indivíduo, nada ensina, nada. nem mesmo sob a pregação diária, a lavagem cerebral, por mais que afirmem isso, eu não consigo acreditar. como medir isso também me parece uma incógnita, saber se hoje alguém é melhor ou pior do que há um tempo atrás, como comparar sua existência agora com a de anos idos, em outra perspectiva, em outro enquadramento, ou tendo em vista outros focos e outras referências e potências fraquezas?
nasci e permaneço um animal ruminante, quase pacífico, não mordo com força, só o suficiente para não me montarem quando não quero, para desistirem me adestrar quando estou indisposta e/ou para afastar os inconvenientes. deveria ter uns dez estômagos, só tenho um e lento. demoro processar tudo o que não consigo engolir, então está aí a explicação do ciclo de mastigar, regurgitar e ruminar constante. esse ruminar existencial, vácuo de atitude e de reação que respondo dizendo "não é nada" que resolvi por conveniência chamar de "vazio" impera. não que seja realmente vazio, não que seja realmente nada, mas enquanto falta-me o termo certo para definir é assim que irei me referir, para não voltar à explicação enfadonha e particular do buraco negro - "ruminar".
me sinto protegida dos outros quando não estou atrás de uma máquina de escrever, atrás duma folha em branco que me confronta, estar ali mergulhada no meu silêncio ensurdecedor, duvidando de mim mesma, dizendo-me em meio a tortura dilacerante (que inflijo a mim mesma) que eu sou uma impostora, não sou escritora e que nada em mim é verdadeiro e relevante.
ardo em dor e febre e duvido de minha dor, duvido de meus sentidos, e acho que estou fingindo sem pudor, e sou desacreditada por mim, antes que os outros o façam.
todos os dias busco respostas, meu tribunal interno me inquire e me cobra todos os dias, antes de dormir. as minhas própria ausência dos outros, apaziguam as minhas necessidades, não faço tanta falta assim, embora me cobrem presença. uma amante satisfatória por que dissimulo, uma filha querida porque cuido à distância, com palavras bonitas, uma mãe horrível, que abandonou, silenciou e isolou-se, não exercendo a maternidade como deveria, como poderia.
não me lembro de ter sido livre ou totalmente verdadeira com ninguém, há sempre essa reação adversa sob a pressão, querem que eu responda bem a tudo que me enfiam goela abaixo e cu acima, ao contrário do que esperam, eu me protejo com esse manto, com esse ato dissimulado de dizer o que anseiam ouvir e ser seja lá quem quer que eles almejam que eu seja. um camaleão que se encobre na invisibilidade ou na farsa do inexistir, ou na improbabilidade de disfarçar quem sou, para não ser atacado ou devorado por espécies maiores e mais poderosas que eu.
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